sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Maverick V8

Sempre sonhei em ter um Maverick V8. Sair por aí dirigindo, sentindo o ronco do motor e o vento no rosto. Era o carro dos meus sonhos.

E tudo começou de forma inesperada.

Eu estava andando com o Nando, meu melhor amigo desde o primeiro ano da escola, quando paramos em frente a uma vitrine. E lá estava ele: o Maverick V8 azul e branco.

Fiquei paralisado. Meus olhos grudaram naquela máquina como se fossem imãs. O capô azul royal exibia duas faixas brancas que corriam do para-brisa até o bico do carro. Nas laterais, outra faixa branca acompanhava o contorno. Era exatamente como eu imaginava. Como se tivesse saído direto do meu sonho para aquela vitrine.

Nando me chamava, tentando me tirar do transe, mas eu não ouvia. Estava hipnotizado.

A partir daquele dia, passei a inventar desculpas para cruzar com a loja diariamente. Só para vê-lo mais uma vez. E mais uma. E mais uma. Comecei a guardar cada moedinha que podia. Minha missão era clara: aquele carro seria meu.

A obsessão foi tanta que até sonhei com ele.

Naquele sonho, eu dirigia por uma estrada rumo ao litoral. Os vidros abertos deixavam o vento acariciar meu rosto, enquanto no rádio tocava minha música favorita do Elvis, Suspicious Minds.

Ao meu lado, estava a Marcinha. Usava óculos escuros e uma blusa azul-clara com bolinhas brancas. Desde o dia em que recolhi os livros que ela deixou cair no pátio da escola, meu coração era dela. E, naquele sonho, ríamos de alguma coisa sem sentido enquanto o Maverick cortava a estrada.

O volante era leve como seda. Cada marcha que trocava parecia alimentar o carro, dar-lhe força, como se o motor pulsasse junto com meu coração. Era como se eu conhecesse cada pistão pelo nome. E os carros à frente? Assim que viam a frente intimidadora do meu Maverick pelo retrovisor, imediatamente abriam passagem. Eu sorria ao vê-los ficando para trás.

Acordei com aquele som ainda nos ouvidos. O ronco do motor, a risada da Marcinha, a melodia do Elvis.

Trabalhei feito gente grande. Fiz serviços extras, alguns pesados, tudo para acelerar a conquista do meu sonho. Nada me desanimava.

Nando, por outro lado, começou a se afastar. Dizia que eu só falava daquele carro e que, ao chegar à loja, esquecia do mundo. Talvez ele tivesse razão — eu realmente esquecia. Fechava os olhos e podia quase ouvir o motor ligado, chamando por mim.

Mas um dia, ao chegar à vitrine, levei um choque: o carro não estava lá. Apenas a placa amarela com os dizeres "Vende-se Maverick V8" permanecia, como um aviso cruel. Entrei correndo na loja. Falei tão rápido com o vendedor que ele nem entendeu. Tive que levá-lo até o local vazio, apontar a placa e praticamente implorar por uma explicação.

Ele riu e explicou que o carro havia sido retirado apenas para a limpeza do espaço, mas que voltaria no dia seguinte ou no outro.

Respirei aliviado, mas antes que eu saísse, ele colocou a mão no meu ombro e disse:

— Meu rapaz, é melhor você arrumar logo esse dinheiro. Muita gente já veio ver esse carro. É uma raridade. Não vai aparecer outro igual.

Aquelas palavras não saíam da minha cabeça. Talvez fosse só papo de vendedor, mas funcionou. Em três dias, fui pedir ajuda ao meu pai para completar o valor que faltava. Contei sobre todo o meu esforço, o quanto aquele carro significava pra mim. Falei até do som que eu ouvia ao fechar os olhos.

Ele me olhou com seriedade e respondeu:

— Era isso que você queria com tanto esforço? Amanhã vamos ver esse carro juntos, e decidimos.

Aceitei. Não tinha escolha.

Foi a noite mais longa da minha vida. Rolei na cama até tarde, sem conseguir dormir. No dia seguinte, levantei cedo, pronto. Chamei meu pai, que ainda tomava café com a maior calma do mundo. Eu, do lado de fora, perto do portão, suava em expectativa.

Quando finalmente saímos, eu mal conseguia prestar atenção no caminho. Meu pai até me chamou a atenção por atravessar a rua sem olhar. Depois de uma eternidade, chegamos à loja.

Agarrei o braço dele e fui direto ao vendedor. O carro estava lá, brilhando.

— Ainda está pelo mesmo preço? — perguntei, quase sem fôlego.

— Sim. — respondeu ele, sorrindo.

Entreguei-lhe todo o dinheiro que tinha. Faltava um pouco. Olhei para meu pai.

— Tudo bem — ele disse, com um sorriso. — Eu completo. O carro é dele.

O vendedor abriu a vitrine, pegou a miniatura do Maverick V8 e a placa amarela. Colocou tudo em minhas mãos.

— Vendido. E a placa também é sua.

Foi o dia mais feliz dos meus dez anos de vida. Meu pai, percebendo isso, me levou para comemorar com um sorvete. Por conta dele, é claro.

Hoje, ao olhar para a estante do meu quarto, vejo o velho carrinho e a plaquinha já desbotada pelo tempo: "Vende-se Maverick V8". E lembro imediatamente do meu pai.

Que saudade.

E ainda hoje, se fecho os olhos com força, consigo ouvir... o ronco do motor do carro dos meus sonhos.

Obrigado, papai.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um monte de letras juntas.

Sempre quis publicar um livro.
Queria ver gravado em algumas folhas de papel em branco, muitas e diversas letras, talvez misturadas com alguns números, e que as pessoas as vissem ir se juntando, grudando e formando palavras.
Nada de palavras complicadas, só as mais simples.
Começaria com uma letra maiúscula em vermelho, acho bonito um texto que começa com a primeira letra numa fonte bem diferente e vistosa. Talvez até iniciasse assim: Era uma vez... Porque tudo que começa assim, sabemos que tem aventura, emoção, dificuldades, mas que termina com gente feliz. Li muitos livros assim.
Não gosto de palavras complicadas que querem dar volume as coisas simples. Palavras pesadas, incompreensíveis. Não dá ânimo ou vontade de ler algo assim. Como um livro técnico, cansa muito, mas tem sua finalidade.
Já li muito romance, mas foi me cansando e tornando-se repetitivo. Mal começava a ler e sabia quem ficaria com quem, e que o vilão, geralmente maldoso o tempo todo, morre rápido ou escapa, some, para voltar no próximo lançamento.
Quando adolescente lia muitos livros de aventura. Ah! Esses são os melhores. Viajo com eles e devoro cada capítulo, cada página. Se for de descobrir segredos então... Deixo até de comer.
Um dia, tentando escolher um livro para comprar, encontrei um livro de poemas. Foi num sebo, no centro da cidade. Nunca li um livro desses, mas mesmo assim abri ao acaso, em uma página qualquer e li:
"Permita que apenas palavras entrem por seus olhos, fique cego ao que te cerca. A maldade, a incompreensão, o descaso, tudo o que te cerca, é ficção, criação de Alguém maior, para que experimente a vida."
Não soube interpretá-las naquele momento, mas senti que meus olhos queriam que meu cérebro ordenasse as minhas mãos, para virar a página. Eles estavam ansiosos para ler o restante. Então comprei o livro.
Assim comecei a viagem mais gostosa que fiz.
Acho que deu certo mesmo, afinal, comecei ajuntar as letras, as palavras e as frases. 
Assim, espero sinceramente, que mais esse livro que apresento, possa trazer a você, aquele momento que vivi e que você talvez ainda procure.
Devo ter acertado em alguma frase que possa mexer com você, como também devo ter cometido alguns deslizes, mas isso não importa. Quero é que se divirta ou quem sabe, até se emocione.
Apenas palavras..., foi escrito para mim e você. Ajudou-me a crescer, torço para que se encontre em algum momento.

Boa leitura.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sempre aprendendo

Durante a campanha eleitoral, no ano de 2000, fui candidato vice-prefeito em Jacareí nessa ocasião, fui convidado para assistir a uma palestra de Cristovão Buarque ex-governador do Distrito Federal, e aprendi nessa oportunidade, que não basta fazer certo, tem que mostrar que é certo.
A história foi mais ou menos assim:
Ele tentava a reeleição ao governo do Distrito Federal, então se lembrou de uma cidade muito afastada, que ajudara muito quando governador.
Segundo ele, a cidade tinha abastecimento de água muito ruim e ele fez chegar água com mais qualidade. O esgoto era precário e ele também ajeitou as coisas e ainda melhorou a condição da educação, seu carro chefe na campanha e principalmente, melhorou muito as condições da saúde naquela cidade. 
Ele achava que naquela cidade, pelo que realizou, teria muito apoio e partiu com sua comitiva para lá, para iniciar a sua campanha,
Pelo caminho,  foi revendo tudo que realizou na cidade e passava para seu coordenador de campanha. Tinha certeza de ser bem recebido e de conseguir muitos votos por ali. Eram muitos os trabalhos realizados e também significantes. Ele tinha convicção, que havia acertado em escolher aquela cidade para dar início em sua maratona eleitoral.
Já na entrada da cidade, viu ao longe um morador que participava do grupo de liderança de bairro e lembrou que teve diversas reuniões com ele, sempre pleiteando melhorias, melhorias essas, que Cristovão ajudara a conseguir. Então parou ao lado do morador que estava de bicicleta e teve uma grande surpresa.
No bagageiro da bicicleta, o morador trazia uma bandeira de haste grande, a imagem de seu oponente.
- Mas seu fulano, eu pensei que depois de tudo o que conseguimos juntos aqui para a cidade, o senhor fosse me apoiar e está com a bandeira desse senhor?
O morador muito tranquilo parou e desceu da bicicleta para responder:
- Verdade seu Cristovão. O senhor fez muito pela nossa cidade, água, esgoto, escola, mas e pra mim, o senhor fez o que?
Sem saber o que responder e desapontado, Cristovão partiu dali, foi em busca de outros moradores e ficou a lição.
"Não basta fazer certo, tem que mostrar que é certo".
Não ganhamos a eleição naquela oportunidade, mas ganhei a experiência do que é ser correto e quanto custa esse “ser correto” num mundo de acordos escusos, chantagens vis e muita, mas muita sujeira.
Você pode, se quiser manter-se limpo na política.
Mas não se iluda, a individualidade existe e deve ser respeitada, mas o individualismo é complicado de lidar.
É importante lembrar, que quem ganhou nas eleições de Cristovão, o escolhido do povo, foi caçado por uma série de irregularidades.

Sobrevivi a tudo isso.