quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Janis


Foi há muito tempo
O primeiro contato,
foi estridente, gritado
Assustei-me... O que é isso?
Deixei de lado.
Mas ela insistiu na minha atenção
Novamente parei, fiquei sem ação
O que era grito
Transformou-se em canção, não minto
Acelerou o coração.
Não foi a sua forte vibração
mas sim, a doçura.
É tudo loucura, eu sei
Mas quis conhecê-la.
Com sua imagem, veio a certeza
Não tinha grande beleza
algo estonteante,
o que senti naquele instante
foi mais belo que o físico,
mais forte que o impacto,
era uma magia, me encantou,
uma incrível energia,
uma suavidade rasante,
Que me permite o exagero.
Uma voz meiga e bruta me invadia
Incendiando algo em mim
Sou Freitas
Me chamado a vida
Encontrara-a, enfim
Era... Janis Joplin

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Minha Cinderela

Quando ela entrou, eu não percebi. Estava ajeitando uma prateleira ou guardando algo, não lembro ao certo. Só sei que, apesar dos colegas se apressarem para atendê-la, foi na minha direção que ela veio.

Primeiro, pensei que fosse passar reto, talvez indo falar com alguém atrás de mim. Mas não: ela parou bem diante dos meus olhos e disse, com um sorriso:

— Bom dia!

Paralisei.

Sempre tive esse problema. Não sei se é timidez ou alguma pane interna, mas, diante de certas pessoas, eu simplesmente travo. Era como se meu corpo esquecesse de se mover, de respirar... de existir.

Fiquei ali, imóvel, esperando que meus neurônios, em choque, voltassem a funcionar. Só despertei de verdade quando ela completou, com uma voz que parecia música:

— Pode me ajudar?

Senti o velho tremor invadir as mãos, o sangue voltar a correr nas veias, o ar finalmente preencher meus pulmões. Pisquei algumas vezes e, meio que reaprendendo a falar, respondi:

— Sim...?

— Gostaria de um sapato preto, daquele modelo ali.

Ela se virou para apontar. E o mundo virou junto.

Seu gesto foi em câmera lenta: o movimento suave dos cabelos soltos, o leve balançar dos fios espalhando no ar um perfume doce e discreto. Eu deveria ter seguido a direção de seu dedo, mas meus olhos se recusavam a abandonar sua imagem.

Só quando ela insistiu, sorrindo de leve:

— Aquele ali, com detalhes em pequenos cortes.

Acordei de novo.

— Ah... claro! — gaguejei.

Pedi que se sentasse em uma poltrona e corri para o estoque. Ou melhor, tentei correr sem virar o pescoço, sem perder de vista aquela visão.

Ela era perfeita.

Cabelos longos, brincos dourados discretos, nariz pequeno e levemente arrebitado. Lábios rosados e sensíveis. Uma gargantilha simples em torno do pescoço delicado. O vestido leve contornava suas curvas com uma graça natural. Tudo nela parecia ter sido desenhado com esmero: cintura, quadris, joelhos pequenos e bem-feitos, pernas torneadas...

Ela era harmonia em forma de gente.

— Vai atender ou vai ficar dormindo aí? — resmungou o chefe, quebrando meu encantamento como um vidro estilhaçado.

Peguei dois pares de sapato, menores, e voltei para minha Cinderela, pronto para calçar o seu "sapatinho de cristal".

— Hã... — me ajeitei, tentando parecer confiante — Desculpe, que número você calça?

— 43 — respondeu, sorrindo.

Congelado de novo, olhei para os sapatos miúdos em minhas mãos, olhei para ela, de novo para os sapatos... e ri, sem conseguir evitar.

— Um minutinho! — disfarcei, já rindo — Acho que esses vieram com defeito. Vou pegar os certos pra você.

Pois é. Diante de tamanha beleza, tudo parecia pequeno.

E olha... de pés eu entendo.

43... Caracas!

Acontece.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Segunda -feira

Boas tiradas pra animar seu começo de semana...



Tá reconheço... Foi fraquinha... Tentemos mais uma..



Véio de boa, é segunda-feira, querias o que?????

domingo, 7 de outubro de 2012

Andarilho XII - A chave - Final


Era um quarto minúsculo, impregnado de cheiro de umidade. A casa de Jorge ficava logo atrás do correio: dois cômodos alugados, sem forro, cobertos por telhas onduladas que transformavam o lugar num forno. Quente demais. O ar parecia não circular.

Sentei-me na única cadeira existente. Jorge acomodou-se no chão, encostado na parede descascada, e ali começou a me contar sua verdadeira história.

Tudo o que dissera antes era verdade. Apenas omitira um detalhe essencial: o rapaz de sua história era filho de um político poderoso de sua cidade natal. Um coronel desses que não aparecem nos jornais, mas mandam mais do que deveriam. O pai o preparava para disputar a prefeitura nas próximas eleições.

Na véspera da tragédia, Jorge participara de um jogo. Ganhara uma quantia considerável — dinheiro limpo, honesto. O filho do coronel pagara tudo sem discussão. Saiu contrariado, é verdade, mas em paz. Pelo menos era o que parecia.

Alguma coisa, no entanto, aconteceu naquela madrugada. As notícias diziam que pai e filho haviam brigado. O rapaz saiu de casa transtornado. Jorge acreditava que o jogo fora o estopim. Drogado, fora atrás do dinheiro que perdera, convencido de que podia retomá-lo.

Jorge dormia quando ouviu a porta ser arrombada. O estrondo o arrancou da cama. Levantou-se ainda desorientado e foi verificar. Deu de frente com o rapaz, fora de si, gritando pelo dinheiro. Tentou falar, acalmá-lo. Não houve tempo.

O rapaz sacou uma arma da cintura.

Jorge reagiu por instinto. Avançou para tomar a arma. O disparo ecoou, atingindo o teto. No mesmo instante, o rapaz parou. A arma caiu de sua mão. Ele foi se dobrando lentamente até cair no chão.

Atrás dele, imóvel, estava a esposa de Jorge. Tremia, com uma faca ainda erguida na mão.

Jorge ouviu vozes do lado de fora. Percebeu que o rapaz não estava sozinho. Tomou a faca da mão da esposa, puxou uma mochila debaixo da cama, pulou a janela e correu pelo corredor estreito que levava aos fundos da casa.

O resto eu já conhecia.

Agora, porém, havia mais: o coronel colocara um preço por sua cabeça. Jorge estava marcado. Precisava viver fugindo.

Mostrou-me então a chave, girando-a entre os dedos.

— Esta é a chave da minha vida — disse, sério.

Era a chave de uma caixa postal no correio. Ali ele guardava o dinheiro do jogo. Enviara-a para mim porque acreditava que eu era uma boa pessoa. Se algo lhe acontecesse, eu deveria enviar o dinheiro à família dele, conforme as instruções deixadas na caixa postal.

Mas, graças a Dingo, escapara mais uma vez. E partiria naquela mesma noite.

Agradeceu-me por tudo. Tentou me dar dinheiro. Recusei. Então pediu apenas uma coisa: que eu permitisse que ele desse um presente a Dingo. Um agradecimento por tê-lo salvo, ao avançar contra os perseguidores e lhe dar tempo para fugir.

Contou que estava exausto, dias sem dormir. Sabia que os homens estavam por perto. Levou Dingo consigo para alertá-lo caso alguém se aproximasse, quando o corpo não aguentasse mais e o sono vencesse.

E foi exatamente assim que aconteceu.

O presente era uma bonita coleira de couro.

Enquanto a colocava em Dingo, Jorge apenas comentou que, por ser nova, eu deveria retirá-la e lavá-la depois de uma semana. O couro ainda virgem encolheria um pouco.

Agradeci e deixei o pequeno quarto. Saí ainda atordoado com tudo o que ouvira, com o peso daquela história grudado no peito.

Logo ao ganhar a calçada, deparei-me com um grupo de cabos eleitorais. Panfletavam, agitavam bandeiras, ocupavam a frente do correio. Desviei entre eles, chamando Dingo para que me acompanhasse. Com certeza trabalhavam para algum outro coronel. Domingo era dia de eleição. Vivem disso.

Eu… não voto mais.