terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Não sei quanto a você... Mas eu, acredito no Natal.


Não sei quanto a você... Mas eu acredito no Natal. Você talvez não acredite que, nessa época, o Natal, muitas coisas acontecem... Eu creio.

Aquele ano foi muito difícil em razão dos pacotes econômicos do governo e, com a chegada do Natal, parecia que piorava. Não sobrava dinheiro para nada, por mais que economizasse.

Eu tinha uma microempresa, com sete funcionários, e não podia deixar faltar minhas obrigações trabalhistas com eles. Contavam com o pagamento em dia, o 13º salário para as festas de Natal e Fim de Ano. Eles sabiam que eu estava tentando de tudo para não faltar com minha obrigação. Por outro lado, eu também via o quanto se esforçavam para me ajudar. Todos entendíamos que não teria como segurá-los no próximo ano, que eu teria que dispensar alguns. Realmente estávamos muito mal financeiramente e, fatalmente, iria encerrar a empresa.

Quando faltavam apenas alguns dias para o pagamento, surgiu um bom serviço. Conseguimos realizá-lo e recebê-lo a tempo. Todos ficaram felizes e consegui cumprir com minha obrigação, porém, não restou nada, nenhum recurso para o meu Natal.

Apesar de ter ficado feliz por conseguir pagar todos os funcionários, sabia que o meu Natal seria difícil, até mesmo para comprar um bom presente para meu primeiro filho ou ainda, fazer uma ceia digna em casa. Passar o Natal na casa de amigos? Nem pensar. Eu acho chato demais ir e não levar nada. Pode até ser orgulho, mas isso estava fora de questão.

Cheguei em casa, contei como estava nossa situação e disse que não sabia como iríamos fazer. Realmente seria um Natal muito triste.

Os dias foram passando e nada de aparecer um serviço que nos ajudasse. Meus amigos funcionários perceberam meu desânimo e tristeza, mas não tinham como me ajudar e assim foi até o dia 23 de dezembro, quando nos despedimos. O ano de trabalho havia terminado. Foi uma despedida um pouco triste, porém muito boa, e todos foram para casa.

Fechei a empresa e fui para casa sem saber o que fazer ou como dar a notícia de que não havia conseguido nada.

A única coisa que ouvi quando contei foi... "Amanhã será outro dia".

O amanhã chegou.

Tinha planejado não abrir a empresa naquele sábado, dia 24, véspera de Natal, mas como não tinha o que fazer e estava desanimado, saí de casa muito cedo e fui para lá. Pensei em aproveitar o dia para arrumar algumas coisas e assim me ocupar.

Após uns quarenta minutos da minha chegada, o telefone tocou.

Era o dono de um mercadinho interessado em uma central telefônica. Normalmente, quando isso ocorria, eu fazia uma visita ao cliente e gerava um orçamento. Depois de alguns dias, quando aprovado, recebia 40% do valor (normalmente em cheque para alguns dias, o restante do valor pagava parcelado), fazia o pedido do equipamento para o fabricante, que me entregava em dez dias. Depois de tudo isso, eu instalava e recebia minha mão de obra.

Mesmo sabendo de todo esse longo procedimento, fechei a empresa e fui encontrar o cliente. Pelo menos começaria o ano com algum dinheiro para honrar mais alguns compromissos. Se fizesse a venda, é claro.

Quando cheguei ao mercadinho, o movimento estava muito grande e confesso que fiquei mais angustiado ao ver os carrinhos cheios de compras passando por mim. Logo, o proprietário veio me atender.

Expliquei como tudo funcionava e o que poderia oferecer. Para meu espanto, ele falou que queria comprar e pagar à vista. Naquela época, onde o dinheiro estava tão escasso em razão da economia do país, ninguém pagava um valor razoavelmente alto dessa forma, principalmente na véspera do Natal.

Para melhorar as coisas, ele resolveu comprar o único modelo que tinha na empresa a pronta entrega. Uma máquina parada em meu estoque, onde ganharia 100% do negócio. É claro que fiquei feliz, apesar de saber que veria esse dinheiro apenas no ano seguinte. Ainda assim, estava ótimo. Então veio a frase esperada.

— Só tem um problema, estou meio enrolado nesses dias de festas, se não for problema da forma que eu posso te pagar...

Eu sabia... Tudo estava indo bem demais para ser verdade. Fiquei ali no seu escritório preenchendo o formulário de compra, enquanto ele foi buscar o que imaginei ser o cheque.

O proprietário demorou uns vinte minutos para retornar, então colocou um pacote enorme de notas trocadas e miúdas na minha frente, dizendo:

— Sei que não é adequado, mas aqui é um mercadinho. Posso pagá-lo com dinheiro trocado? Estou sem cheque nesse momento, se não for incomodar...

Incomodar???

Peguei todo aquele dinheiro, coloquei na minha pasta de mão, cumprimentei o proprietário pela ótima aquisição, me comprometi a instalar o mais rápido possível e parti rapidamente para casa.

Quando cheguei em casa, por volta das 12 horas, chamei todos para a sala e disse:

— Venham ver, Papai Noel entregou nosso presente mais cedo esse ano.

Abri minha pasta e deixei cair todas aquelas notas miúdas sobre a mesa da sala, para espanto de todos.

Passamos um excelente e farto Natal, sem bebedeiras ou exageros como em anos anteriores. Aliás, nunca mais comemoramos assim, erradamente. Agora, todo Natal, preparamos um bolo de nozes e comemoramos o nascimento daquele que tudo nos proporciona.

Acredite, o Natal existe. Basta querer vivê-lo como deve ser... Com muito respeito e alegria.

Ho, ho, ho.




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Maverick V8

Sempre sonhei em ter um Maverick V8. Sair por aí dirigindo, sentindo o ronco do motor e o vento no rosto. Era o carro dos meus sonhos.

E tudo começou de forma inesperada.

Eu estava andando com o Nando, meu melhor amigo desde o primeiro ano da escola, quando paramos em frente a uma vitrine. E lá estava ele: o Maverick V8 azul e branco.

Fiquei paralisado. Meus olhos grudaram naquela máquina como se fossem imãs. O capô azul royal exibia duas faixas brancas que corriam do para-brisa até o bico do carro. Nas laterais, outra faixa branca acompanhava o contorno. Era exatamente como eu imaginava. Como se tivesse saído direto do meu sonho para aquela vitrine.

Nando me chamava, tentando me tirar do transe, mas eu não ouvia. Estava hipnotizado.

A partir daquele dia, passei a inventar desculpas para cruzar com a loja diariamente. Só para vê-lo mais uma vez. E mais uma. E mais uma. Comecei a guardar cada moedinha que podia. Minha missão era clara: aquele carro seria meu.

A obsessão foi tanta que até sonhei com ele.

Naquele sonho, eu dirigia por uma estrada rumo ao litoral. Os vidros abertos deixavam o vento acariciar meu rosto, enquanto no rádio tocava minha música favorita do Elvis, Suspicious Minds.

Ao meu lado, estava a Marcinha. Usava óculos escuros e uma blusa azul-clara com bolinhas brancas. Desde o dia em que recolhi os livros que ela deixou cair no pátio da escola, meu coração era dela. E, naquele sonho, ríamos de alguma coisa sem sentido enquanto o Maverick cortava a estrada.

O volante era leve como seda. Cada marcha que trocava parecia alimentar o carro, dar-lhe força, como se o motor pulsasse junto com meu coração. Era como se eu conhecesse cada pistão pelo nome. E os carros à frente? Assim que viam a frente intimidadora do meu Maverick pelo retrovisor, imediatamente abriam passagem. Eu sorria ao vê-los ficando para trás.

Acordei com aquele som ainda nos ouvidos. O ronco do motor, a risada da Marcinha, a melodia do Elvis.

Trabalhei feito gente grande. Fiz serviços extras, alguns pesados, tudo para acelerar a conquista do meu sonho. Nada me desanimava.

Nando, por outro lado, começou a se afastar. Dizia que eu só falava daquele carro e que, ao chegar à loja, esquecia do mundo. Talvez ele tivesse razão — eu realmente esquecia. Fechava os olhos e podia quase ouvir o motor ligado, chamando por mim.

Mas um dia, ao chegar à vitrine, levei um choque: o carro não estava lá. Apenas a placa amarela com os dizeres "Vende-se Maverick V8" permanecia, como um aviso cruel. Entrei correndo na loja. Falei tão rápido com o vendedor que ele nem entendeu. Tive que levá-lo até o local vazio, apontar a placa e praticamente implorar por uma explicação.

Ele riu e explicou que o carro havia sido retirado apenas para a limpeza do espaço, mas que voltaria no dia seguinte ou no outro.

Respirei aliviado, mas antes que eu saísse, ele colocou a mão no meu ombro e disse:

— Meu rapaz, é melhor você arrumar logo esse dinheiro. Muita gente já veio ver esse carro. É uma raridade. Não vai aparecer outro igual.

Aquelas palavras não saíam da minha cabeça. Talvez fosse só papo de vendedor, mas funcionou. Em três dias, fui pedir ajuda ao meu pai para completar o valor que faltava. Contei sobre todo o meu esforço, o quanto aquele carro significava pra mim. Falei até do som que eu ouvia ao fechar os olhos.

Ele me olhou com seriedade e respondeu:

— Era isso que você queria com tanto esforço? Amanhã vamos ver esse carro juntos, e decidimos.

Aceitei. Não tinha escolha.

Foi a noite mais longa da minha vida. Rolei na cama até tarde, sem conseguir dormir. No dia seguinte, levantei cedo, pronto. Chamei meu pai, que ainda tomava café com a maior calma do mundo. Eu, do lado de fora, perto do portão, suava em expectativa.

Quando finalmente saímos, eu mal conseguia prestar atenção no caminho. Meu pai até me chamou a atenção por atravessar a rua sem olhar. Depois de uma eternidade, chegamos à loja.

Agarrei o braço dele e fui direto ao vendedor. O carro estava lá, brilhando.

— Ainda está pelo mesmo preço? — perguntei, quase sem fôlego.

— Sim. — respondeu ele, sorrindo.

Entreguei-lhe todo o dinheiro que tinha. Faltava um pouco. Olhei para meu pai.

— Tudo bem — ele disse, com um sorriso. — Eu completo. O carro é dele.

O vendedor abriu a vitrine, pegou a miniatura do Maverick V8 e a placa amarela. Colocou tudo em minhas mãos.

— Vendido. E a placa também é sua.

Foi o dia mais feliz dos meus dez anos de vida. Meu pai, percebendo isso, me levou para comemorar com um sorvete. Por conta dele, é claro.

Hoje, ao olhar para a estante do meu quarto, vejo o velho carrinho e a plaquinha já desbotada pelo tempo: "Vende-se Maverick V8". E lembro imediatamente do meu pai.

Que saudade.

E ainda hoje, se fecho os olhos com força, consigo ouvir... o ronco do motor do carro dos meus sonhos.

Obrigado, papai.




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um monte de letras juntas.

Sempre quis publicar um livro.
Queria ver gravado em algumas folhas de papel em branco, muitas e diversas letras, talvez misturadas com alguns números, e que as pessoas as vissem ir se juntando, grudando e formando palavras.
Nada de palavras complicadas, só as mais simples.
Começaria com uma letra maiúscula em vermelho, acho bonito um texto que começa com a primeira letra numa fonte bem diferente e vistosa. Talvez até iniciasse assim: Era uma vez... Porque tudo que começa assim, sabemos que tem aventura, emoção, dificuldades, mas que termina com gente feliz. Li muitos livros assim.
Não gosto de palavras complicadas que querem dar volume as coisas simples. Palavras pesadas, incompreensíveis. Não dá ânimo ou vontade de ler algo assim. Como um livro técnico, cansa muito, mas tem sua finalidade.
Já li muito romance, mas foi me cansando e tornando-se repetitivo. Mal começava a ler e sabia quem ficaria com quem, e que o vilão, geralmente maldoso o tempo todo, morre rápido ou escapa, some, para voltar no próximo lançamento.
Quando adolescente lia muitos livros de aventura. Ah! Esses são os melhores. Viajo com eles e devoro cada capítulo, cada página. Se for de descobrir segredos então... Deixo até de comer.
Um dia, tentando escolher um livro para comprar, encontrei um livro de poemas. Foi num sebo, no centro da cidade. Nunca li um livro desses, mas mesmo assim abri ao acaso, em uma página qualquer e li:
"Permita que apenas palavras entrem por seus olhos, fique cego ao que te cerca. A maldade, a incompreensão, o descaso, tudo o que te cerca, é ficção, criação de Alguém maior, para que experimente a vida."
Não soube interpretá-las naquele momento, mas senti que meus olhos queriam que meu cérebro ordenasse as minhas mãos, para virar a página. Eles estavam ansiosos para ler o restante. Então comprei o livro.
Assim comecei a viagem mais gostosa que fiz.
Acho que deu certo mesmo, afinal, comecei ajuntar as letras, as palavras e as frases. 
Assim, espero sinceramente, que mais esse livro que apresento, possa trazer a você, aquele momento que vivi e que você talvez ainda procure.
Devo ter acertado em alguma frase que possa mexer com você, como também devo ter cometido alguns deslizes, mas isso não importa. Quero é que se divirta ou quem sabe, até se emocione.
Apenas palavras..., foi escrito para mim e você. Ajudou-me a crescer, torço para que se encontre em algum momento.

Boa leitura.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013