quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A inveja e as pimentas



A inveja é uma coisa complicada, tanto que foi relacionada como um dos setes pecados capital e ninguém estão livres dela.
No trabalho, por exemplo, sempre há uma competitividade de desempenho e ela aparece de forma explícita, como em uma promoção. Sempre vem a frase famosa "Por que ele e não eu?" ou ainda camuflado, na conversa no canto do café. Geralmente aparece na forma de desdenhar a evolução ou progresso do projeto de um colega e na sequência sugere o mesmo que desdenhou ao chefe.
Mas é possível invejar sem querer mal.
Você pode invejar o crescimento profissional de um colega, lembrando quanto ele ralou pra conseguir. Basta que essa sensação esteja vinda da admiração e inspiração, para que você possa melhorar.
Ah!... Não vá invejar o marido da Angelina Jolie, pensando no melhor e nem deprecie, porque estará deixando explícito que inveja o que ele conquistou e você não.
A filha menor inveja a maior por ela ser maior de idade e poder sair sozinha, indo a diversos lugares que ela por ser menor, não pode. A mais velha inveja a menor por poder acordar mais tarde e não ter que ir trabalhar num dia chuvoso... Por ai, vai.
Quando se gera energia e esforço para conseguirmos ou conquistarmos algo que desejamos, como o crescimento de um amigo na empresa, ela torna-se uma inveja positiva, geralmente sentida pelas pessoas resolvidas e de bem com a vida, que quer ver seu próximo muito bem e utiliza essa inveja e admiração como mola propulsora.
Agora se tudo funciona ao contrario, típico de pessoas de baixa estima, sem poder de criação ou reação, ela vira uma inveja negativa e pode ser muito destrutiva.
Ganhei um pequeno vaso de meu mano véio, com um bonitinho pé de pimenta, segundo ele ótimo contra mal olhado e olho gordo. Eu nunca me dou bem com pimentas, mas deixou e deu-me ainda apenas uma recomendação:
- Regue pelo menos durante um mês pra ele se firmar. 
Esqueci... E ele começou a secar.
Duas semanas depois o mano me falou...
- Cara o pé de pimenta tá secando, existe muito olho gordo sobre você.
Ele me deu tantas recomendações que tive vergonha de dizer que me esquecera de regar.
Passaram-se mais duas semanas e adivinhem... Esqueci de novo... E ai?... Secou, morreu.
Quando voltou em casa e soube pelo meu filhote que a pimenta morrera, deixou um bilhete na minha geladeira.
"Cara, vou te trazer mais dois pés de pimenta, pra colocar um de cada lado da porta, a inveja e o olho gordo que tem sobre você é muita que até matou o outro pé".
Na mesma hora lhe enviei uma mensagem pelo celular.
"Mano véio, não precisa dos pezinhos de pimenta não, para o olho gordo, comprei um colírio diet e pra inveja um cartão, - Não tenha inveja, trabalhe."
Não adiantou, acho que ele não entendeu a brincadeira quando cheguei a casa eram dois vasos de pimenta e um de espada de São Jorge... Que inveja da persistência dele.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Emoções... Doente por amor.


Você já ficou doente de amor?
Pois bem...
Já lá no século IV a.C, Hipócrates já sabia do quanto as emoções são capazes de desequilibrar uma pessoa e até deixa-la doente. Não é atoa que é considerado como o Pai da Medicina. Entendia muito do assunto.
Os orientais também já sabiam há séculos e por isso dedica muito para seu equilíbrio, mas atualmente esse impacto das emoções na saúde está sendo cada vez mais estudado pelos médicos, diante das doenças destes novos tempos.
Mas há sempre a contra partida.
É claro que as emoções não são responsáveis por todos os nossos males, o desrespeito aos limites do nosso corpo também é vilão nessa história, soma-se fatores genéticos e hereditários, sem contar os ambientais, muitas vezes causados pelo próprio homem, que influenciam no surgimento de novas doenças.
Mas temos também, da mesma forma, outras emoções que nos ajudam a recuperar a saúde rapidamente, como a alegria, o otimismo e a felicidade. Quem já não ouviu falar dos fantásticos Doutores da Alegria. Um grupo de palhaços, que levam principalmente as crianças, muitas gargalhadas e que os animam nos leitos de hospitais. 
Não há como negar a importância que as emoções têm nessas recuperações.
Essa pressão emocional existe para todos e em todo lugar, o trabalho quem o diga, mas o que realmente faz a diferença, é como cada um de nós a administramos, como lidamos com as dores que ela causa.
Certa vez li uma frase "Quando o sofrimento não pode se expressar pelas lágrimas, ele faz chorar os outros órgãos". A incapacidade de expressar e vivenciar os sentimentos é que faz mal a saúde.
Quem já não ficou "deprê" por um amor não correspondido, por um ciúme de amizade ou ainda pela interpretação de preferências. É barra... Em algum momento passamos por isso.
Cansei de ver meus filhotes "jururus", como dizia mamãe, por causa de um amor. Passando um domingo ensolarado, lindo, enfiados num quarto ouvindo músicas nem sempre de qualidade. Mal saiam pra comer. 
Para eles os Maias erraram a data do fim do mundo... Estava acontecendo àquela hora.
Sobra pra nós psicólogos caseiros, ajudá-los a sair de tal condição. Só com muito carinho, paciência, bons ouvidos e conselhos, só assim os resgatamos de uma possível queda pra doença.
Mas também já os vi, radiantes, eufóricos, sentindo-se donos do mundo, todo poderosos e ai pra nós pais é um perigo. Com certeza sobrará sempre àquela famosa frase: 
- "Papai querido, meu amor, me dá dindin pra sair?", com essa combinação de carinho explícito com solicitação financeira direta, a gente sempre dança.
- Tá bom... Pegue aqui, mas olhe lá, heim!
- Hei! Cadê meu beijo? 
Tarde demais já foi.
Mas antes assim

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Soneto 17



Se te comparo a um dia de verão 
És por certo mais belo e mais ameno 
O vento espalha as folhas pelo chão 
E o tempo do verão é bem pequeno.
 
 Ás vezes brilha o Sol em demasia 
Outras vezes desmaia com frieza; 
O que é belo declina num só dia, 
Na terna mutação da natureza. 
 
Mas em ti o verão será eterno, 
E a beleza que tens não perderás; 
Nem chegarás da morte ao triste inverno: 
 
Nestas linhas com o tempo crescerás. 
E enquanto nesta terra houver um ser, 
Meus versos vivos te farão viver.


Willian Shakespeare

domingo, 11 de novembro de 2012

Andarilho XVI - Caixa postal


Confesso que não gostei de deixar Marlene para trás daquela forma, em meio à despedida do avô. Mas o que mais me inquietava — e ao mesmo tempo me empurrava adiante — era a necessidade de retornar ao encontro de Jorge. O medo estava ali, claro, mas havia também a certeza incômoda de que era o caminho certo. E foi por isso que parti.

Antes de ir, Marlene me fez prometer que entraria em contato, que daria notícias para que soubesse que eu estava bem. Depois de tudo o que lhe contei, anotou meu número em seu celular e me deu o dela, pedindo que ligasse caso precisasse de ajuda. Foi assim que nos despedimos. E foi assim que voltei para a estrada, torcendo apenas para chegar a tempo.

Levei dois dias até alcançar Manhuaçu. A cidade estava agitada naquele dia. Fui direto à pequena casa ao lado do correio. Estava fechada. Permaneci a certa distância, observando o movimento, atento a qualquer sinal. Mas não havia ninguém. Tudo parecia silencioso demais.

Fiquei ali alguns minutos, indeciso entre bater à porta e chamar por Jorge ou seguir direto ao correio. Por prudência, escolhi a segunda opção.

Entrei no prédio ainda tomado pela apreensão e me dirigi ao balcão de informações. Expliquei quem eu era e disse que viera buscar uma encomenda em uma caixa postal. A atendente pediu um documento e se voltou para um senhor que estava ao seu lado. Ele me observou por alguns segundos, sério, avaliando-me, e então fez um leve gesto afirmativo com a cabeça.

Ela abriu uma gaveta, entregou-me uma chave, pediu que eu assinasse um formulário e indicou o corredor onde ficava a caixa correspondente.

Caminhei devagar, atento a tudo ao redor, até parar diante de uma pequena portinhola cinza. Olhei mais uma vez para os lados e introduzi a chave. Um clique baixo ecoou. Com as mãos trêmulas, abri lentamente a caixa postal número 2103.

Dentro havia um pacote, pouco menor que uma caixa de sapatos. Sobre ele, um bilhete. Peguei-o e li:

“Não abra nada aí. Saia o mais rápido possível.”

Fechei a caixa imediatamente e me dirigi à saída.

Foi então que senti uma mão pousar sobre meu ombro. Gelei.

— O senhor precisa devolver a chave. Se quiser, podemos providenciar uma cópia e enviar ao senhor — disse o mesmo homem que conversara com a atendente.

Entreguei a chave sem dizer nada e saí apressado, com o pacote debaixo do braço, sempre acompanhado de perto por Dingo. Sabia que, se algo estivesse errado, ele me avisaria.

Mais um susto. O celular de Marlene vibrava no meu bolso.

Entrei rapidamente em um bar próximo, pedi o banheiro e saquei o telefone. Dingo ficou sentado à porta, atento.

— Alô… — disse, a voz falhando.

— Sou eu, Marlene. Onde você está?

Contei tudo o que havia acontecido. Ela disse que estava na cidade. Contara a história ao irmão, que decidira vir atrás de mim. Naturalmente, ela viera junto. Estavam em frente ao correio. Combinei de encontrá-los.

Quando saí do banheiro, Dingo não estava mais à porta. Olhei ao redor. O bar estava vazio. Um arrepio percorreu-me o corpo. Dei dois passos em direção à saída quando ouvi alguém me chamar.

Virei-me devagar. Um senhor, segurando uma vassoura, apontava para um canto. Olhei com desconfiança. Lá estava Dingo, comendo algo.

— Tem que dar água ao seu cão, meu amigo. Estava morrendo de sede — disse ele.

E eu, de medo.

Agradeci, chamei Dingo e deixamos o bar.

Do outro lado da rua, uma buzina soou. Atravessei apressado. Não comentei com Marlene nem com Rodrigo, mas tinha a nítida sensação de estar sendo observado.

Saímos da cidade o mais rápido possível. Dingo quase ficou para trás, não fosse o amor pela dona. Pulou no colo de Marlene pela janela aberta, como se fosse uma porta escancarada, e começou a lambê-la, em festa.

A última coisa que vi pelo retrovisor foi uma placa:

“Volte sempre.”

Para mim… nunca mais.