Confesso que não gostei de deixar Marlene para trás daquela forma, em meio à despedida do avô. Mas o que mais me inquietava — e ao mesmo tempo me empurrava adiante — era a necessidade de retornar ao encontro de Jorge. O medo estava ali, claro, mas havia também a certeza incômoda de que era o caminho certo. E foi por isso que parti.
Antes de ir, Marlene me fez prometer que entraria em contato, que daria notícias para que soubesse que eu estava bem. Depois de tudo o que lhe contei, anotou meu número em seu celular e me deu o dela, pedindo que ligasse caso precisasse de ajuda. Foi assim que nos despedimos. E foi assim que voltei para a estrada, torcendo apenas para chegar a tempo.
Levei dois dias até alcançar Manhuaçu. A cidade estava agitada naquele dia. Fui direto à pequena casa ao lado do correio. Estava fechada. Permaneci a certa distância, observando o movimento, atento a qualquer sinal. Mas não havia ninguém. Tudo parecia silencioso demais.
Fiquei ali alguns minutos, indeciso entre bater à porta e chamar por Jorge ou seguir direto ao correio. Por prudência, escolhi a segunda opção.
Entrei no prédio ainda tomado pela apreensão e me dirigi ao balcão de informações. Expliquei quem eu era e disse que viera buscar uma encomenda em uma caixa postal. A atendente pediu um documento e se voltou para um senhor que estava ao seu lado. Ele me observou por alguns segundos, sério, avaliando-me, e então fez um leve gesto afirmativo com a cabeça.
Ela abriu uma gaveta, entregou-me uma chave, pediu que eu assinasse um formulário e indicou o corredor onde ficava a caixa correspondente.
Caminhei devagar, atento a tudo ao redor, até parar diante de uma pequena portinhola cinza. Olhei mais uma vez para os lados e introduzi a chave. Um clique baixo ecoou. Com as mãos trêmulas, abri lentamente a caixa postal número 2103.
Dentro havia um pacote, pouco menor que uma caixa de sapatos. Sobre ele, um bilhete. Peguei-o e li:
“Não abra nada aí. Saia o mais rápido possível.”
Fechei a caixa imediatamente e me dirigi à saída.
Foi então que senti uma mão pousar sobre meu ombro. Gelei.
— O senhor precisa devolver a chave. Se quiser, podemos providenciar uma cópia e enviar ao senhor — disse o mesmo homem que conversara com a atendente.
Entreguei a chave sem dizer nada e saí apressado, com o pacote debaixo do braço, sempre acompanhado de perto por Dingo. Sabia que, se algo estivesse errado, ele me avisaria.
Mais um susto. O celular de Marlene vibrava no meu bolso.
Entrei rapidamente em um bar próximo, pedi o banheiro e saquei o telefone. Dingo ficou sentado à porta, atento.
— Alô… — disse, a voz falhando.
— Sou eu, Marlene. Onde você está?
Contei tudo o que havia acontecido. Ela disse que estava na cidade. Contara a história ao irmão, que decidira vir atrás de mim. Naturalmente, ela viera junto. Estavam em frente ao correio. Combinei de encontrá-los.
Quando saí do banheiro, Dingo não estava mais à porta. Olhei ao redor. O bar estava vazio. Um arrepio percorreu-me o corpo. Dei dois passos em direção à saída quando ouvi alguém me chamar.
Virei-me devagar. Um senhor, segurando uma vassoura, apontava para um canto. Olhei com desconfiança. Lá estava Dingo, comendo algo.
— Tem que dar água ao seu cão, meu amigo. Estava morrendo de sede — disse ele.
E eu, de medo.
Agradeci, chamei Dingo e deixamos o bar.
Do outro lado da rua, uma buzina soou. Atravessei apressado. Não comentei com Marlene nem com Rodrigo, mas tinha a nítida sensação de estar sendo observado.
Saímos da cidade o mais rápido possível. Dingo quase ficou para trás, não fosse o amor pela dona. Pulou no colo de Marlene pela janela aberta, como se fosse uma porta escancarada, e começou a lambê-la, em festa.
A última coisa que vi pelo retrovisor foi uma placa:
“Volte sempre.”
Para mim… nunca mais.
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