domingo, 1 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
A pipa.
Sábado
chegou. Era o meu dia.
Passei a semana inteira me preparando para ele.
Na segunda-feira, ainda bem cedo, já estava na porta do
mercadinho do Nagib, esperando abrir. O objetivo era claro: comprar papel azul
e branco para fazer a minha pipa. Não era qualquer uma. Era especial.
Seria o primeiro sábado das férias, e todos os meninos estariam atrás da escola
com suas pipas no ar. Eu também estaria lá, com a minha: a gloriosa
“Ramalhina”.
Tinha guardado meu dinheirinho com esforço. Passei a semana
sem comprar piruá na escola — aquele milho que não vira pipoca, mas que a gente
come assim mesmo —, sem chicletes e sem as maria-moles que vinham entre as
bolachas de maizena. Valeu o sacrifício. Saí do mercadinho com as duas folhas
nas cores do meu time do coração: o azul e o branco do Ramalhão. Guardei-as com
cuidado no alto do guarda-roupa, bem esticadinhas, para não amassar.
Na terça, fui atrás dos gomos de bambu e comecei a preparar
as varetas. É um trabalho fino, de paciência. Claro que mamãe apareceu pra
reclamar da sujeira. Tive que limpar tudo correndo, mas antes do almoço já
estavam prontas. Medi, comparei, pesei. Estavam perfeitas. Saí atrasado para a
escola, como sempre. Ainda bem que era a última semana de aula.
Quarta de manhã, montei a armação. Primeiro a vareta
vertical, depois a horizontal, formando a cruz. Medi tudo direitinho, ajustei,
firmei o centro. Depois enrolei a linha em espiral, contornando a armação e
curvando a vareta inferior. Parece complicado? E é mesmo. Levei tempo até
aprender. Mas, modéstia à parte, ficou perfeita.
Na quinta, era dia de fazer a rabiola. Cortei metade de cada
folha, dobrei uma, duas, três vezes e fui cortando as tiras. Eram muitas —
afinal, a rabiola precisava ser vistosa. Estiquei a linha no quintal e comecei
a amarrar as fitinhas, uma a uma. Quase me atrasei de novo. Mamãe ameaçou me
deixar em casa no sábado, então corri para o banho. Dois minutos. Ela me lançou
aquele olhar que dizia “não engana ninguém”, mas já era tarde. Saí em disparada
para a escola.
Sexta-feira. O grande dia de encapar a pipa.
Tomei só café com leite, sem tempo pra bolacha de maizena
amassada na caneca ou a sopinha de pão — aquele pão francês picadinho com café
e açúcar, que só mãe sabe fazer.
Na mesa da cozinha, juntei as duas folhas: metade azul,
metade branca. Coloquei a armação por cima e girei para todos os lados,
procurando o melhor ângulo. Mamãe deu o palpite final: diagonal. A parte azul
embaixo, a branca por cima. Ficou linda. Cortei com cuidado e colei. Enquanto
secava, amarrei a rabiola na base da armação e coloquei o estirante — é a linha
que usamos pra prender o carretel.
Sim, isso se chama estirante. Não sabiam? Ah, vocês
não entendem nada de pipa mesmo... rsrs
Pronto. A mais bela pipa que já fiz estava ali, esperando o
céu.
Sábado amanheceu com sol. O céu limpo, perfeito. Os meninos
saíam de suas casas com suas pipas e corriam para o morro, atrás da escola.
Tinha pipa de tudo quanto é tipo, cor e tamanho. Mas percebi: todos olhavam
para a minha. Comentavam. Admiravam.
Começamos a empinar. Nunca vi um céu tão cheio de pipas.
Vieram as brincadeiras: desbicar, perseguir, cortar. Ah,
isso vocês sabem, né?
Foi quando apareceu uma pipa vermelha, com uma rabiola
branca. E começou a cortar todas as outras.
Como? Como ele conseguia aquilo?
Não... Não! A minha pipa, não...
Mal tive tempo de reagir. A linha foi cortada e ela se foi,
voando. Nem corri atrás. Fiquei ali, parado. Bravo. Triste. Fui procurar quem
tinha feito isso, saber o porquê.
Não encontrei o menino, mas soube como ele fazia aquilo.
Usava linha com cerol — uma mistura perigosa que o primo trouxe de Santos. Um
menino bobo e feio, que destruiu o meu sábado.
O pior foi ver que, nas semanas seguintes, quase todos
começaram a usar esse tal de cerol. E eu...
Nunca mais fiz ou soltei uma pipa.
Até hoje me pergunto:
Por que sempre tem alguém disposto a estragar o que é bonito?
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
# 198 - Ozzy Osbourne
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Mais um título do meu Santo
E assim o jogo rolou, fácil para nós.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
A Roda Gigante
Saindo do
trabalho, Daniel — um colega recém-chegado na empresa — me convidou para ir até
a unidade móvel de um grande parque de diversões que estava montado na cidade.
Chegamos lá por volta das 20h. Demos um giro para conhecer
os brinquedos: montanha-russa, Paradise, carrinhos de bate-bate e muitos
outros. O mini parque estava bem legal e bastante movimentado.
Fomos direto pra montanha-russa. Show de bola! Gostamos
tanto que voltamos pra fila. Enquanto eu segurava nosso lugar, Daniel foi
comprar umas pipocas. Acho que ele queria me agradar por ter conseguido aquela
oportunidade pra ele na empresa.
Eu havia falado com meu chefe, um espanhol, e ele topou
colocar o Daniel no laboratório. Precisava de alguém pra me ajudar, e ele
estava desempregado fazia tempo, bem apertado nas contas.
Depois de uns 20 minutos (achei até que ele tinha se
perdido, já que é meio atrapalhado), Daniel apareceu — acompanhado de duas
meninas. Apresentou a dupla e, apesar da chiadeira da galera na fila dizendo
que eram nossas namoradas, colocou as duas com a gente.
Fomos de novo na montanha-russa e depois partimos pra outro
brinquedo. Tudo estava indo bem. Daniel já abraçava uma das meninas, e eu, do
meu lado, só conversava com a outra. Na época, eu namorava sério e não queria
enrosco. Mesmo ela sendo muito bonitinha, minha ideia era só me divertir e dar
risada. Mantive a fidelidade.
Entramos em mais alguns brinquedos. Enquanto meu amigo já
estava aos beijos com a menina dele, a que estava comigo jogava charme. Chegou
a segurar minha mão, mas a gente só ria e conversava.
Até que ela teve uma ideia:
— Vamos na Roda-Gigante!
Na hora pensei: Ferrou.
Tentei argumentar, mas fui vencido pelo trio e lá fomos nós.
Compramos pipoca e esperamos nossa vez na fila. Todos estavam animados — menos
eu, com a cara de quem vai ser demitido da própria vida.
Daniel me puxou de lado e perguntou:
— O que foi? A menina é uma gracinha, bora curtir!
— Daniel, você sabe que eu tô namorando sério. Vai que
alguém me vê aqui e conta pra ela…
— Que nada, cara! Quem vai te ver aqui? Essa é a Roda-Gigante!
Uns beijinhos não vão te matar. Olha que princesinha…
Sei…
Chegou a nossa vez. Primeiro foi meu colega com a menina
dele, depois — uns quatro bancos depois — lá fui eu.
Na primeira volta, passamos tranquilos pelo operador. A fila
ainda estava enorme. Na segunda volta, a roda parou umas três vezes pra trocar
os passageiros. Quando passamos de novo pelo operador, lá estava ela: uma prima
da minha namorada, bem na frente da fila, com mais duas amigas.
Ela me olhou surpresa, enquanto a roda me levava de novo pro
alto. Na hora eu soube: Tô ferrado.
Essa prima vivia na casa da minha namorada. Ia contar. Tava
escrito.
A Roda-Gigante parou com a gente bem no topo — provavelmente
pra ela subir.
A menina ao meu lado se encolheu e disse:
— Tô com frio… me abraça?
Ah, tá.
Olhei sério pra ela e respondi, direto como um cavalo
chucro:
— Minha querida, fecha a blusa, porque não vou te abraçar,
não.
Assim que descemos, as duas meninas sumiram — literalmente.
Mas a prima? Ah, essa não sumiu, não. Bastaram alguns passos e ouvi:
— Oi, primo. Não foge de mim, não.
— Que isso, prima… Só ia comprar um refrigerante.
— Tá. Nem vem com conversinha. Fica comigo ou conto tudo pra
tua namoradinha.
De queixo caído e ainda tonto, fui puxado pelo braço de
volta pra Roda-Gigante. Nem achei mais o Daniel. A essa altura, ele deve ter
ficado na mão… enquanto eu subia de novo, agora com outra menina.
O que aconteceu no restante da noite?
Ah… deixo por conta da imaginação de vocês.
Primas… vai vendo.


