domingo, 1 de dezembro de 2013

Sempre aprendendo

Durante a campanha eleitoral, no ano de 2000, fui candidato vice-prefeito em Jacareí nessa ocasião, fui convidado para assistir a uma palestra de Cristovão Buarque ex-governador do Distrito Federal, e aprendi nessa oportunidade, que não basta fazer certo, tem que mostrar que é certo.
A história foi mais ou menos assim:
Ele tentava a reeleição ao governo do Distrito Federal, então se lembrou de uma cidade muito afastada, que ajudara muito quando governador.
Segundo ele, a cidade tinha abastecimento de água muito ruim e ele fez chegar água com mais qualidade. O esgoto era precário e ele também ajeitou as coisas e ainda melhorou a condição da educação, seu carro chefe na campanha e principalmente, melhorou muito as condições da saúde naquela cidade. 
Ele achava que naquela cidade, pelo que realizou, teria muito apoio e partiu com sua comitiva para lá, para iniciar a sua campanha,
Pelo caminho,  foi revendo tudo que realizou na cidade e passava para seu coordenador de campanha. Tinha certeza de ser bem recebido e de conseguir muitos votos por ali. Eram muitos os trabalhos realizados e também significantes. Ele tinha convicção, que havia acertado em escolher aquela cidade para dar início em sua maratona eleitoral.
Já na entrada da cidade, viu ao longe um morador que participava do grupo de liderança de bairro e lembrou que teve diversas reuniões com ele, sempre pleiteando melhorias, melhorias essas, que Cristovão ajudara a conseguir. Então parou ao lado do morador que estava de bicicleta e teve uma grande surpresa.
No bagageiro da bicicleta, o morador trazia uma bandeira de haste grande, a imagem de seu oponente.
- Mas seu fulano, eu pensei que depois de tudo o que conseguimos juntos aqui para a cidade, o senhor fosse me apoiar e está com a bandeira desse senhor?
O morador muito tranquilo parou e desceu da bicicleta para responder:
- Verdade seu Cristovão. O senhor fez muito pela nossa cidade, água, esgoto, escola, mas e pra mim, o senhor fez o que?
Sem saber o que responder e desapontado, Cristovão partiu dali, foi em busca de outros moradores e ficou a lição.
"Não basta fazer certo, tem que mostrar que é certo".
Não ganhamos a eleição naquela oportunidade, mas ganhei a experiência do que é ser correto e quanto custa esse “ser correto” num mundo de acordos escusos, chantagens vis e muita, mas muita sujeira.
Você pode, se quiser manter-se limpo na política.
Mas não se iluda, a individualidade existe e deve ser respeitada, mas o individualismo é complicado de lidar.
É importante lembrar, que quem ganhou nas eleições de Cristovão, o escolhido do povo, foi caçado por uma série de irregularidades.

Sobrevivi a tudo isso.

sábado, 30 de novembro de 2013

A pipa.

Sábado chegou. Era o meu dia.

Passei a semana inteira me preparando para ele.

Na segunda-feira, ainda bem cedo, já estava na porta do mercadinho do Nagib, esperando abrir. O objetivo era claro: comprar papel azul e branco para fazer a minha pipa. Não era qualquer uma. Era especial. Seria o primeiro sábado das férias, e todos os meninos estariam atrás da escola com suas pipas no ar. Eu também estaria lá, com a minha: a gloriosa “Ramalhina”.

Tinha guardado meu dinheirinho com esforço. Passei a semana sem comprar piruá na escola — aquele milho que não vira pipoca, mas que a gente come assim mesmo —, sem chicletes e sem as maria-moles que vinham entre as bolachas de maizena. Valeu o sacrifício. Saí do mercadinho com as duas folhas nas cores do meu time do coração: o azul e o branco do Ramalhão. Guardei-as com cuidado no alto do guarda-roupa, bem esticadinhas, para não amassar.

Na terça, fui atrás dos gomos de bambu e comecei a preparar as varetas. É um trabalho fino, de paciência. Claro que mamãe apareceu pra reclamar da sujeira. Tive que limpar tudo correndo, mas antes do almoço já estavam prontas. Medi, comparei, pesei. Estavam perfeitas. Saí atrasado para a escola, como sempre. Ainda bem que era a última semana de aula.

Quarta de manhã, montei a armação. Primeiro a vareta vertical, depois a horizontal, formando a cruz. Medi tudo direitinho, ajustei, firmei o centro. Depois enrolei a linha em espiral, contornando a armação e curvando a vareta inferior. Parece complicado? E é mesmo. Levei tempo até aprender. Mas, modéstia à parte, ficou perfeita.

Na quinta, era dia de fazer a rabiola. Cortei metade de cada folha, dobrei uma, duas, três vezes e fui cortando as tiras. Eram muitas — afinal, a rabiola precisava ser vistosa. Estiquei a linha no quintal e comecei a amarrar as fitinhas, uma a uma. Quase me atrasei de novo. Mamãe ameaçou me deixar em casa no sábado, então corri para o banho. Dois minutos. Ela me lançou aquele olhar que dizia “não engana ninguém”, mas já era tarde. Saí em disparada para a escola.

Sexta-feira. O grande dia de encapar a pipa.

Tomei só café com leite, sem tempo pra bolacha de maizena amassada na caneca ou a sopinha de pão — aquele pão francês picadinho com café e açúcar, que só mãe sabe fazer.

Na mesa da cozinha, juntei as duas folhas: metade azul, metade branca. Coloquei a armação por cima e girei para todos os lados, procurando o melhor ângulo. Mamãe deu o palpite final: diagonal. A parte azul embaixo, a branca por cima. Ficou linda. Cortei com cuidado e colei. Enquanto secava, amarrei a rabiola na base da armação e coloquei o estirante — é a linha que usamos pra prender o carretel.

Sim, isso se chama estirante. Não sabiam? Ah, vocês não entendem nada de pipa mesmo... rsrs

Pronto. A mais bela pipa que já fiz estava ali, esperando o céu.

Sábado amanheceu com sol. O céu limpo, perfeito. Os meninos saíam de suas casas com suas pipas e corriam para o morro, atrás da escola. Tinha pipa de tudo quanto é tipo, cor e tamanho. Mas percebi: todos olhavam para a minha. Comentavam. Admiravam.

Começamos a empinar. Nunca vi um céu tão cheio de pipas.

Vieram as brincadeiras: desbicar, perseguir, cortar. Ah, isso vocês sabem, né?

Foi quando apareceu uma pipa vermelha, com uma rabiola branca. E começou a cortar todas as outras.

Como? Como ele conseguia aquilo?

Não... Não! A minha pipa, não...

Mal tive tempo de reagir. A linha foi cortada e ela se foi, voando. Nem corri atrás. Fiquei ali, parado. Bravo. Triste. Fui procurar quem tinha feito isso, saber o porquê.

Não encontrei o menino, mas soube como ele fazia aquilo. Usava linha com cerol — uma mistura perigosa que o primo trouxe de Santos. Um menino bobo e feio, que destruiu o meu sábado.

O pior foi ver que, nas semanas seguintes, quase todos começaram a usar esse tal de cerol. E eu...

Nunca mais fiz ou soltei uma pipa.

Até hoje me pergunto:
Por que sempre tem alguém disposto a estragar o que é bonito?

 

 


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mais um título do meu Santo


Tudo foi planejado... Ou quase.
Eu iria ao estádio ver o meu Santo André ser campeão, mais uma vez. 
Convidei alguns amigos e o Mano véio, mas ninguém quis ir. Ramalhão mesmo, de verdade, só eu. Então, fui sozinho mesmo.
O jogo seria difícil, afinal, o adversário seria o temido XV de Piracicaba, time tradicional do interior paulista. Eu não tinha duvida que seríamos  campeões. O campo da disputa seria no antigo Parque Antártica  do Palmeiras, clube que com o passar dos anos, nos teria como uma pedra no sapato, mas isso é outra história.
Como na época eu participava da torcida uniformizada, iria com o ônibus fretado que partiria da prefeitura municipal, na verdade eram vários ônibus que levariam gratuitamente quem quisesse ver o confronto. O ônibus que entrei, era já um tanto velho de uma empresa da cidade vizinha, Mauá. Mas o que me importava mesmo, era que eu estar dentro dele. Eu iria ver o Ramalhão!
Logo de cara, já dentro do ônibus lotado e sem ninguém que eu conhecesse, apareceu uma garrafa de whisky na minha mão, não sei de onde ela surgiu e muito menos qual era a marca, então começou o coro "Vira, Vira...", e eu virei.
Partimos de Santo André num frenesi tremendo, cantarolando e gritando "`O glorioso é o campeão". Logo outras garrafas começaram dar as caras, cachaça, vinho, mais whisky e sei lá eu, o que mais. Naquela altura já nem sabia mais o que bebia, então comecei a maneirar. Só sei que cheguei ao estádio sem minha camisa e com uma bandeira jogada nas costas.
Fui entrando no estádio levado pela turma. Confesso que nem me lembro da cara do estádio ou de como eu chegará ali no meio da arquibancada. Quem pagara o meu ingresso? Acho que eu não estava muito bem, então resolvi ir ao banheiro lavar o rosto e tentar me recuperar um pouco.
Quando voltei, não sabia mais onde estava a turma do ônibus. Estava perdido naquela imensidão de gente. Mas tudo bem, eu viera para ver o jogo e ele já ia começar. Como não era lá muito alto, mal conseguia ver o jogo e na base do "Dá licença", fui abrindo caminho e cheguei ao gargarejo, na cara do campo.
Era minha noite, até então nunca tinha vibrado tanto, nem mesmo no nosso primeiro título em 1975, na época eu era um garoto que se apaixonava por este clube. Já estava ficando rouco, louco e um pouco de tudo. Meus ídolos eram o Fernandinho e o Lance, um jogador já veterano.
E assim o jogo rolou, fácil para nós.
Faltavam cinco minutos para o final, vencíamos de 3x1. Acho que toda minha agitação com o jogo me fizera transpirar muito, jogando todo aquele excesso de álcool pra fora. Resolvi sair dali e ir para o ônibus antes do jogo terminar. Já que não estava muito bem, pelo menos chegaria logo, sem riscos de ser atropelado pela multidão.
Até que achei o nosso ônibus rapidinho e entrei. Como eu, mais três colegas tiveram a mesma ideia e começamos a conversar e comemorar o título.
De repente o motorista fechou as portas e disse:
- Vamos embora os torcedores do XV estão saindo e vindo pra cá.
Como assim irmos embora? E os outros colegas?
Nem deu tempo para perguntar, logo uma pedra arrebentou um das janelas. O motorista ligou e acelerou o ônibus. Deitamos no chão debaixo dos bancos enquanto mais pedras quebravam outras janelas, jogando vidros por toda parte. Foi assustador.
Ali, encolhidos e quietos, percebemos as manobras do motorista que saia em alta velocidade do estacionamento, onde havia parado.
Foi um grande susto. Fora alguns arranhões e pequenos cortes, tudo ficou bem. Até chegarmos ao centro de Santo André.
Quando passávamos pela prefeitura o motorista parou o ônibus e pediu para descermos. Isso era perto da uma da madrugada, mas descemos sabendo que neste horário não haveria transporte público para casa.
Os colegas, como estavam juntos, foram embora a pé mesmo e lá estava eu, no centro de Santo André, muito longe de casa, sem camisa e enrolado na bandeira do Ramalhão. Numa madrugada fria pra caramba.
Já que não tinha jeito, fiquei por ali mesmo, comemorando com as dezenas de andreenses, que começaram a encher o centro, até circular o primeiro ônibus.
O duro foi explicar em casa a minha condição e trabalhar no outro dia todo dolorido.
Mas com a gente é assim mesmo, uma vez Ramalhão... Sempre campeão.
Valeu todo o sacrifício.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A Roda Gigante


Saindo do trabalho, Daniel — um colega recém-chegado na empresa — me convidou para ir até a unidade móvel de um grande parque de diversões que estava montado na cidade.

Chegamos lá por volta das 20h. Demos um giro para conhecer os brinquedos: montanha-russa, Paradise, carrinhos de bate-bate e muitos outros. O mini parque estava bem legal e bastante movimentado.

Fomos direto pra montanha-russa. Show de bola! Gostamos tanto que voltamos pra fila. Enquanto eu segurava nosso lugar, Daniel foi comprar umas pipocas. Acho que ele queria me agradar por ter conseguido aquela oportunidade pra ele na empresa.

Eu havia falado com meu chefe, um espanhol, e ele topou colocar o Daniel no laboratório. Precisava de alguém pra me ajudar, e ele estava desempregado fazia tempo, bem apertado nas contas.

Depois de uns 20 minutos (achei até que ele tinha se perdido, já que é meio atrapalhado), Daniel apareceu — acompanhado de duas meninas. Apresentou a dupla e, apesar da chiadeira da galera na fila dizendo que eram nossas namoradas, colocou as duas com a gente.

Fomos de novo na montanha-russa e depois partimos pra outro brinquedo. Tudo estava indo bem. Daniel já abraçava uma das meninas, e eu, do meu lado, só conversava com a outra. Na época, eu namorava sério e não queria enrosco. Mesmo ela sendo muito bonitinha, minha ideia era só me divertir e dar risada. Mantive a fidelidade.

Entramos em mais alguns brinquedos. Enquanto meu amigo já estava aos beijos com a menina dele, a que estava comigo jogava charme. Chegou a segurar minha mão, mas a gente só ria e conversava.

Até que ela teve uma ideia:

— Vamos na Roda-Gigante!

Na hora pensei: Ferrou.

Tentei argumentar, mas fui vencido pelo trio e lá fomos nós. Compramos pipoca e esperamos nossa vez na fila. Todos estavam animados — menos eu, com a cara de quem vai ser demitido da própria vida.

Daniel me puxou de lado e perguntou:

— O que foi? A menina é uma gracinha, bora curtir!

— Daniel, você sabe que eu tô namorando sério. Vai que alguém me vê aqui e conta pra ela…

— Que nada, cara! Quem vai te ver aqui? Essa é a Roda-Gigante! Uns beijinhos não vão te matar. Olha que princesinha…

Sei…

Chegou a nossa vez. Primeiro foi meu colega com a menina dele, depois — uns quatro bancos depois — lá fui eu.

Na primeira volta, passamos tranquilos pelo operador. A fila ainda estava enorme. Na segunda volta, a roda parou umas três vezes pra trocar os passageiros. Quando passamos de novo pelo operador, lá estava ela: uma prima da minha namorada, bem na frente da fila, com mais duas amigas.

Ela me olhou surpresa, enquanto a roda me levava de novo pro alto. Na hora eu soube: Tô ferrado.

Essa prima vivia na casa da minha namorada. Ia contar. Tava escrito.

A Roda-Gigante parou com a gente bem no topo — provavelmente pra ela subir.

A menina ao meu lado se encolheu e disse:

— Tô com frio… me abraça?

Ah, tá.

Olhei sério pra ela e respondi, direto como um cavalo chucro:

— Minha querida, fecha a blusa, porque não vou te abraçar, não.

Assim que descemos, as duas meninas sumiram — literalmente. Mas a prima? Ah, essa não sumiu, não. Bastaram alguns passos e ouvi:

— Oi, primo. Não foge de mim, não.

— Que isso, prima… Só ia comprar um refrigerante.

— Tá. Nem vem com conversinha. Fica comigo ou conto tudo pra tua namoradinha.

De queixo caído e ainda tonto, fui puxado pelo braço de volta pra Roda-Gigante. Nem achei mais o Daniel. A essa altura, ele deve ter ficado na mão… enquanto eu subia de novo, agora com outra menina.

O que aconteceu no restante da noite?

Ah… deixo por conta da imaginação de vocês.

Primas… vai vendo.