sexta-feira, 15 de novembro de 2013
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Conheci um campeão!
Esse, não foi um encontro qualquer...
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
# 194 - Raul Santos Seixas
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Dá pra cantar calado?
— Oh...
Elvis... Dá pra cantar calado?
Não pensem que foi uma menção ao rei do rock — foi pra mim
mesmo que falaram isso.
Ontem, voltando da faculdade, depois de uma prova
instantânea respondida em 10 minutos, estava eu curtindo meu MP3, presente de
um colega de trabalho, quando senti um toque no ombro.
— Ô colega, tudo bem?
Era o cobrador. Acho que me empolguei e estava cantando
junto com o John Lennon. Sorte a minha que o ônibus já estava chegando à
rodoviária e estava quase vazio. Sem graça, fiz um sinal positivo pro cara e
desliguei o som até descer.
Mas essa não foi a primeira vez... Me empolgo mesmo com
minhas músicas prediletas e acabo fazendo duetos involuntários.
Fui pescar com meu sobrinho em Taiaçupeba, pra relaxar um
pouco. O local fica nos fundos de um sítio que dá para uma represa. O
proprietário montou uma plataforma em “T” e ceva todos os dias para atrair
tilápias, carás, lambarís e outros peixes. Muito aconchegante e agradável.
Chegamos no fim da tarde com a intenção de virar a noite
pescando. Pegamos um bom lugar na plataforma, já que muitos pescadores estavam
indo embora. Ficamos ali com mais cinco pessoas: três à esquerda, dois à
direita, ou seja, bem no meio.
O entardecer passou e começamos a pescar. A noite estava
linda. Lá pelas oito, paramos um pouco para lanchar, esticar as pernas e lavar
as mãos — não posso dizer que foi pra "dar uma mij...", a Jack diz
que é feio falar assim. Pois bem, relaxamos um pouco, comentamos sobre o céu
estrelado e voltamos à pescaria.
Até perto das dez, todos estavam firmes com as varas na mão.
Depois, alguns começaram a se recolher nos carros para descansar. Meu sobrinho,
um pescador à direita e outro à esquerda acabaram dormindo nas próprias
cadeiras de pesca. Só eu fiquei acordado.
Olhei de um lado, do outro... Todos dormiam.
Peguei meu MP3, liguei, coloquei o capuz da blusa — a
madrugada prometia ser fria — ajeitei-me e fiquei ali, de olho na boinha.
Algum tempo depois, por volta da meia-noite, percebi meu
sobrinho acordando. Ele se remexeu na cadeira e perguntou:
— Ô tio, não vai dormir?
Achei estranha a pergunta, balancei a cabeça e sinalizei que
não.
Ele virou de lado, se encolheu e voltou a dormir. Fechei
mais um pouco o capuz em volta da cabeça e continuei com a pescaria.
Passado um tempo, ele me chamou de novo. Ouvi a voz, mas não
entendi direito. Só percebi mesmo quando ele bateu no meu ombro:
— Tio, canta mais baixo, tá acordando todo mundo...
Cantar mais baixo?
Claro! Num silêncio daqueles, com uma lua linda, os peixes
saltando e eu ouvindo Elvis... sem perceber, estava cantando suas músicas em
dueto.
Aí sempre tem um engraçadinho...
— Ô Elvis, dá pra cantar calado, por favor?
Quem é que conseguiu dormir depois dessa? Foi só gargalhadas
e brincadeiras.
Pescador é bom por isso — leva tudo de boa.
Oh, saudades dessas pescarias...
domingo, 10 de novembro de 2013
Uma noite de Natal - Parte II
Chico vinha
caminhando à frente, carregando uma pequena caixa. Logo atrás dele, com passos
lentos e cuidadosos, vinha uma mulher. Ela segurava junto ao peito um embrulho
envolto numa manta.
— Esta é a Airam — disse Chico, parando diante de nós.
Airam era uma andarilha como nós. Chegara à cidade há alguns
anos e, desde então, permanecia por ali, vagando de um canto a outro. Tinha os
olhos atentos e desconfiados. Observou-nos um a um, sem estender a mão ou
sorrir — apenas acenou com a cabeça, num cumprimento seco.
Chico pediu permissão a ela e, com delicadeza, retirou da
caixa uma toalha vermelha, estampada com flores e frutas. Era linda, mesmo que
um pouco desbotada.
Leon se aproximou de Airam com o mesmo entusiasmo que
mostrara desde o início da noite.
— Olá, Airam. Sejam bem-vindos à nossa noite de Natal.
— Sejam bem-vindos? — perguntei, surpreso.
— Sim — respondeu Leon, sem perder o sorriso. — Temos mais
dois convidados: Airam e seu filho.
Filho? Aquilo que ela carregava apertado contra o peito… era
uma criança?
Airam sorriu de leve, pela primeira vez, e disse que também
tinha algo a contribuir.
Leon pegou sua caixa e, de dentro, retirou uma embalagem
retangular.
— Amigo — disse ele, me mostrando o conteúdo —, pode riscar
da nossa lista o bolo de nozes. Ele chegou!
Era um daqueles bolos prontos para servir. Mais tarde,
naquela noite, Airam nos contaria que o ganhara de um senhor gordinho e
barbudo, que lembrava Leon, só que mais velho.
Enquanto Chico e Leon estendiam a toalha sobre a mureta e
organizavam as comidas com um entusiasmo quase infantil, Airam se aproximou de
mim, tímida.
— Você quer ver meu filho? — perguntou.
Um pouco sem saber o que esperar, assenti com a cabeça.
Com um gesto cuidadoso, ela desdobrou parte da manta. O que
vi ali não foi um bebê, mas uma boneca. Daquelas feitas para parecer um
recém-nascido. Estava um pouco desgastada, com manchas nas roupas e quase
nenhum fio de cabelo. Ainda assim, o cuidado com que ela a descobriu e me
apresentou foi tão delicado que, por um instante, acreditei estar diante de uma
criança de verdade.
Ela sorriu para mim, com ternura, e cobriu novamente o
“filho” após beijar a cabecinha de plástico, desgastada pelo tempo.
Mais tarde, ao ouvir sua história, tudo fez sentido.
Airam perdera o filho em um acidente de carro, muitos anos
atrás. Nunca superou a dor. Naquela manhã de domingo, véspera do Dia das Mães,
ela abandonou o marido, a casa, a vida que conhecia — e passou a caminhar sem
rumo. Chegou àquela cidade algum tempo depois e, ao ganhar a boneca de alguém
que se comoveu com seu silêncio, nunca mais foi embora.
O que a marcou, contou-nos, foi o fato de que ela dirigia o
carro no momento do acidente. Num dia de chuva, numa curva mal iluminada,
perdeu o controle e capotou. Desde então, nunca mais conseguiu se perdoar.
Olhando-a de longe, vendo o carinho com que embalava aquela
boneca, pensei: “Como deve doer viver com essa culpa… E como aquele amor
ainda mora dentro dela, intacto, apenas transferido para aquele pequeno corpo
de plástico.”
A ceia improvisada já tomava forma. Quando me aproximei de
Leon e perguntei como poderia ajudar, ele apenas colocou as mãos em meus ombros
e disse:
— Agora é só relaxar. Em breve, mais convidados chegarão.
Vamos precisar de você.
Não entendi bem o que queria dizer, mas antes que eu
perguntasse, Chico apontou para o outro lado do estacionamento.
— Olha lá, vem mais alguém! — disse ele, animado.
Leon abriu um largo sorriso e caminhou ao encontro do
recém-chegado:
— Pronto! Um já chegou. Vamos recebê-lo.

