segunda-feira, 17 de março de 2025

6.2 - Não é só mais um ano que chegou

 

6.2 - Quem disse que eu não chegava?

Chegar aos 6.2 (sim, eu gosto desse toque moderno) é tipo atualizar o software da vida para a versão premium: mais experiência, mais histórias para contar, mais motivos para rir das pequenas coisas e, claro, mais chances de dar aquele “tilt” inesperado – afinal, os sistemas antigos sempre têm suas falhas.

Ano passado o ChatGPT me disse: “Lembre-se: as rugas são apenas linhas de sabedoria que o tempo desenhou em seu rosto”. Fácil pra ele falar, né? Quem dera eu ser digital e não ter que encarar o espelho todo dia. ChatGPT, quer saber? Aqui pra você. Rusgas! Vai vendo.

E pra responder a pergunta inicial – o primeiro a duvidar fui eu mesmo. Mas não é que eu cheguei?

Vamos à retrospectiva:

5.9 – Até cheguei, mas parecia aqueles videogames antigos: cheio de trancos e travamentos. Fechei o ano com perdas e, se fosse só da minha sanidade, até que tava bom. Uma pessoa querida subiu aos céus e outra foi atravessar o mundo, e eu fiquei meio perdido. Fiquei um pouco mais só e pensei: “ano que vem será melhor”. E veio o esperado 2023.

6.0 – Opa, começou com mais duas perdas. Mais dores, mais orações. Um preferiu me esquecer, e outra, essa eu jamais esquecerei. Saudades eternas, mãe. Melhor ser breve nesse ano.

6.1 – A cabeça tava uma bagunça, tanto quanto a vida. Bati de frente com os problemas, cai pra trás, revidei e a vida me jogou no chão. Problema dela, olha eu de pé outra vez! No começo parecia mais um ano daqueles, mas só parecia. Dei trabalho no trabalho, me descobriram entre tantos e ganhei uma “promoção”. As aspas são porque não foi bem assim, mas deixa quieto. E depois de dois anos sem escrever nada, nem as piadinhas pra roubar sorriso, lancei mais um livro! Nada de concursos e planos, mas prometi a mim mesmo retornar, e aqui estou eu.

6.2 – E não é que cheguei! Bora comemorar! Só não posso pular de alegria porque o joelho pediu aposentadoria antecipada. Nada de exageros nos brindes, a menos que o banheiro esteja pertinho (e tem que ser bem pertinho mesmo). Correr pra um abraço? Correr é exagero. Talvez eu vá devagarinho, com a ajuda de um braço amigo, mas o abraço vai ser sincero e apertado. Pode ser virtual, já me adaptei a isso também. E se puder, manda um emoji bem colorido, porque tá difícil definir as coisas, principalmente se eu estiver chorando (ou rindo, nunca se sabe).

Enfim... Feliz aniversário pra mim! Amo todos vocês... Ô saudades!

sexta-feira, 14 de março de 2025

1ª Sexta-feira - A noite na lagoa



A noite na lagoa
 

N aquela noite o bar da lagoa estava com seu público habitual, dois

companheiros tomavam sua cachaça tranquilo proseando, no balcão o

proprietário passava um pano amarelado no balcão e num canto afastado estava

um velho com um desgastado chapéu na cabeça e um cigarro de palha, já no

seu final.

A entrada de um forasteiro chamou a atenção.

Entrou cumprimentando os presentes e encostou no balcão pedindo uma

cachaça.

— Ouvi dizer que a lagoa aqui do bairro tem traíras boas. — comentou o

desconhecido, com um sorriso confiante. — Estou pensando em pegar algumas

nesta noite.

Os frequentadores do bar se entreolharam, e o ambiente, antes tranquilo,

ficou subitamente tenso. Seu Antônio, o senhor de cabelos grisalhos sentado no

canto, sem olhar na direção do forasteiro e ainda ajeitando seu cigarro,

comentou:

— Moço, não é aconselhável pescar na lagoa durante a noite,

especialmente em noites como esta. — disse ele, apontando para a lua que

brilhava entre nuvens estranhas. — Com essa lua há coisas que a gente não

entende acontece por lá.

O visitante o procurou com os olhos, tomou sua cachaça em um gole só e

soltou uma risada discreta.

— Você está tentando me assustar com suas histórias meu bom velho?

— Não é brincadeira, rapaz. Muitos já desapareceram naquela lagoa em

noites como esta. Dizem que a água chama...

Ignorando os avisos, o forasteiro pagou sua bebida e se levantou.

— Agradeço a preocupação velho, mas não acredito nessas superstições.

Vou pescar assim mesmo.

 

Com sua vara de pesca e uma lanterna, ele seguiu em direção à lagoa e o

velho completou:

— Melhor avisar a polícia. — Disse ao dono do bar — Esse num “vorta”

mais.

A noite estava clara, iluminada pela lua que lançava um brilho prateado

sobre a superfície da água. O ambiente era silencioso, exceto pelo som ocasional

de sapos e grilos.

Instalado na margem, o homem lançou sua linha, acendeu um cigarro e

aguardou. O tempo passava lentamente, e ele começou a sentir uma inquietação

crescente. De repente, pequenas ondulações surgiram na água, seguidas por

bolhas que pareciam vir do fundo da lagoa.

Uma voz suave e hipnótica ecoou em sua mente:

 

— Entre na água...

Ele olhou ao redor, procurando a origem da voz, mas não viu ninguém.

Seu coração acelerou, e ele tentou ignorar o chamado, concentrando-se na

pesca. Ele estava só.

— Entre na água... — a voz repetiu, mais insistente.

Uma luta interna começou. Ele sabia que não havia ninguém ali, mas a

voz era irresistível. Suas mãos tremiam, e o suor escorria por sua testa.

— Não... — murmurou para si mesmo, tentando resistir.

Mas a voz continuava, sedutora e autoritária. Seus pés começaram a se

mover, como se tivessem vontade própria. Ele cravou os calcanhares no chão,

tentando se deter, mas uma força invisível o puxava em direção à água.

Marcas profundas foram deixadas no solo enquanto ele era arrastado, suas

unhas rasgando a terra em uma tentativa desesperada de se segurar. Seus gritos

de pavor ecoaram na noite, mas ninguém estava por perto para ouvi-los.

Ao entrar na água, a sensação gelada o envolveu, e a voz em sua mente

tornou-se ensurdecedora. Seus olhos se arregalaram de terror enquanto era

submerso, a escuridão da lagoa o engolindo completamente.

Na manhã seguinte, os moradores encontraram apenas os pertences do

forasteiro na margem da lagoa. Nenhum sinal dele foi encontrado, e as marcas

no chão contavam uma história de luta e desespero.

Quando a história se espalhou, ouviu-se uma voz não muito distante da

lagoa.

— Eu num disse... — falou um velho enquanto acendia um cigarro,

sentado no mesmo banco do bar.

O Igarapés ganhou mais uma história, e os habitantes reforçaram seu respeito

pela lagoa, especialmente em noites de lua como aquela. Se você nunca viu essa

lua na lagoa... Seja feliz. Se quiser ver, procure o velho no bar. Afinal, há

mistérios que é melhor não desafiar.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Contos do Igarapés - Apresentação

 


T
udo na vida tem uma explicação, menos o inexplicável. A vida é assim, ainda que não possamos entender alguns fatos ou causos legítimos, insistimos em acreditar que eles nunca aconteceram, mesmo sabendo que muito provavelmente são verdades.

Aos amigos do Igarapés e demais amigos, que receberão nas próximas 13 sextas-feiras, contos retratando um pouquinho de mistério e coisa sinistras, que podem ter acontecido ou que acontecerá, no Igarapés.



Bem-vindo ao bairro Igarapés

Assim era e será: narrativas do medo.

 

Igarapés é um lugar sinistro. Na verdade, os eventos não ocorrem apenas no bairro; como uma maldição, os mistérios perseguem pelo mundo aqueles que aqui nasceram ou moraram. Se você já morou aqui, sabe disso.

 

Talvez você duvide de cada palavra que estou prestes a escrever. Afinal, a ficção moderna frequentemente ultrapassa os limites do crível, tornando tudo mais estranho e inacreditável. Há muito que ainda não compreendemos. O que desconhecemos, rotulamos como mistério; aquilo em que não acreditamos, descartamos como fantasia. Já ouvi inúmeros relatos: devotos religiosos narrando experiências sobrenaturais; trabalhadores noturnos em locais isolados compartilhando encontros macabros; profissionais de necrotérios, cemitérios e institutos médico-legais jurando que suas vivências sobrenaturais ao lado de cadáveres são a mais pura verdade.

Certamente, você já se deparou com histórias assim, seja ouvindo, lendo ou até vivenciando. E é provável que me considere insano, desprovido de razão. Mas, meu amigo, asseguro-lhe: nunca estive tão lúcido.

Desde os recônditos vales de Minas Gerais, onde ecos de eventos absurdos persistem, até os solitários campos das chapadas, repletos de narrativas sobre o sobrenatural e a bruxaria, há uma infinidade de relatos aterrorizantes. Alguns de vocês já ouviram sussurros que arrepiam a espinha, histórias que perturbam os sentidos e abalam as emoções, seja na sua rua, no bairro ou na vila próxima.

Quando criança, lembro-me de minha família, originária das profundezas de Minas Gerais, reunida ao redor de um fogão a lenha, no rígido inverno, trocavam causos enquanto bebericavam uma cachaça branquinha. Em suas conversas, emergiam histórias sombrias, ocultas, que me inquietavam profundamente pela falta de explicação. Algumas dessas narrativas permanecem vívidas em minha mente até hoje, enraizadas na minha alma, prontas para ressurgir sempre que sinto algo estranho ao meu redor.

Não afirmo que temo essas histórias. Muitas eram desprovidas de sentido e careciam de elementos horripilantes. No entanto, outras que posteriormente vi, ouvi e experimentei neste canto do mundo fizeram-me refletir sobre o que aqueles velhos parentes devem ter testemunhado em suas vidas.

O bairro de Igarapés é como qualquer periferia de uma cidade média. Situado no limiar da zona rural, é um lugar esquecido por políticos e, talvez, por Deus. Aqui, ocorreram eventos nefastos: mortes violentas, desaparecimentos inexplicáveis e situações estranhas que desafiam a realidade climática da região. Relatos que, mesmo parecendo exagerados ou fictícios, aconteceram de maneira tão surreal que beiram a loucura ou a fantasia. Deixo a você a decisão sobre o que acreditar.

Naturalmente, contarei tudo através de personagens fictícios, afinal, alguns dos envolvidos já não estão entre nós... ou assim pensei. Sempre acreditei que, ao partirem, nos deixavam para criar nossas próprias histórias e registrar suas experiências. Hoje, sei que não é bem assim. Sim, é isso mesmo: alguns moradores de Igarapés juram ter visto pessoas que há muito foram enterradas, carregadas em caixões para suas covas ou jazigos. Alguns afirmam que eles retornaram. Se é verdade ou mentira, não sei.

Sou um autor de histórias juvenis, sempre criando contos para entreter. Até que, numa noite, voltando para casa após o trabalho, notei uma névoa fria descendo rapidamente, cobrindo o final da minha rua. Aquela cortina semelhante a fumaça avançava em minha direção justamente quando cheguei ao meu portão. Senti um calafrio diante daquele avanço rápido que logo me envolveria, enquanto tentava, com mãos trêmulas, inserir a chave na fechadura. Vindo de outras paragens, terras não muito distantes, de uma cidade próxima à capital, estabeleci-me neste bairro isolado e nunca havia presenciado algo assim. Quando finalmente ouvi o clique da fechadura, uma mão gélida repousou pesadamente em meu ombro, e uma voz rouca sussurrou ao meu ouvido: "Boa noite, escritor. Estranha essa névoa, não é?"

Virei-me imediatamente e não havia ninguém. Nesse instante, a névoa me envolveu e começou a se dissipar. Voltei-me novamente para o portão e ouvi a mesma voz, agora distante, dizendo: "Conte nossa história, meu amigo." A voz emergia do meio da escuridão e da névoa que se desvanecia rapidamente.

Hoje, após anos como morador de Igarapés, posso afirmar com convicção: o que está escrito aqui pode não ser semelhante ao que você já ouviu ou viveu, mas, se conhece este lugar, acreditará em mim. Portanto, se reside por aqui, certifique-se de que sua porta está bem trancada à noite. Antes de apagar as luzes, coloque um copo de água pura sobre a geladeira e mantenha uma vela à mão. Um terço ou rosário na mesinha ao lado da cama também pode ser útil. Agora, se decidir realmente ler estes contos, que Deus lhe proteja.

Sexta-feira é um dia ideal para leitura. Você pode relaxar da semana pesada, portanto serão 13 sextas-feiras que receberá essas histórias, sendo a última uma sexta feira13 e lembre-se foi alguém quem pediu para escrever e te enviar. Melhor ler... Boa leitura.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Nildinha

 Mais um dia de luta, mais um dia de dor.

Perdi uma prima muito querida e sua perda me faz refletir algumas coisas.

Sua história tinha muito em haver com a da minha mãe, ambas ficaram viúvas muito jovens e começaram a travar uma luta desigual com a vida.

Ouvi algumas explicações sobre o que nosso "destino" nos reservou, teorias religiosas, suposições do que virá depois, achismo disso ou daquilo, mas nenhuma conseguiu acalmar minha mente confusa com o tema.

Perdi meu pai muito jovem, amigos queridos na adolescência, referencias que moldaram meu trajeto e minha história, minha mãe de uma forma difícil de crer ou aceitar e, como todos que também perderam alguém estimado, cai, rastejei-me, dei meu mundo como findo e incrivelmente, novamente, me pus de pé.

E eis que me vejo novamente no chão...

Ficam-se, lembranças, saudades, a certeza que nos veríamos muito em breve e a realidade que você não está mais aqui.

"Mas essa vida é passageira, chorar eu sei que é besteira, mas prima amada, não dá pra segurar"

Fique em paz.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

O Natal

 Afinal o que é o Natal?

Para alguns uma data religiosa, ou mesmo uma data santa.

Uns acham que é apenas uma data comercial. Pensam em ser um dia de confraternizar, de se aproximar, de não mentir. Outros que é um dia mágico.

Acho que já vivi todos esses sentimentos e pensamentos, um em cada época de minha vida, mas hoje, ele é só Natal. Sem significado algum, apenas Natal.

Quando criança, ficava maravilhado com as cores e luzes espalhadas pelas casas. Meus pais e parentes ficavam mais radiantes e alegres. Faziam planos de grandes encontros e comemorações. A referência  era a vovó. Todos vinham ao seu encontro e a festa acontecia na sua casa.

Como eu era pequeno, não prestava atenção em nada que me cercava. Correrias, agitações, adultos e crianças. Todos estavam ali, mas não os enxergava, apenas via o Natal. Tios discutindo onde, quando e porque. Pais contando dinheiro para as compras, primos em busca de quem ganharia o melhor presente e eu ali perdido na magia do Natal.

Não tinha renas dançantes, boneco de Noel subindo chaminés, não caia neve e muito menos aparecia grupos cantando lindas canções natalinas.

O meu Natal fechava em árvore enfeitada, pacotes coloridos e alegres sob ela e, aquele clima que nunca soube como definir. Era alegria, magia, sorrisos, cores e luzes. Esse era o meu Natal.

Não me lembro de ficar decepcionado com o que ganhei em algum ano, não me incomodei se quem comprou foi  papai, mamãe, madrinha ou Noel. Apenas queria rasgar aquele lindo papel que cobria o maior dos mistérios do mundo: meu presente.

Assim foi por não sei quanto tempo. Até que um dia percebi que era adolescente e tudo mudou.

Virei adulto e até tentei dar ao meu filho aquele Natal da minha infância, mas tudo mudou e muito.

Hoje meu filho tem filho e o Natal é apenas um feriado para se ter uma ceia juntos. Que pena.