sexta-feira, 14 de março de 2025

1ª Sexta-feira - A noite na lagoa


A noite na lagoa

 

N aquela noite o bar da lagoa estava com seu público habitual, dois companheiros tomavam sua cachaça tranquilo proseando, no balcão o proprietário passava um pano amarelado no balcão e num canto afastado estava um velho com um desgastado chapéu na cabeça e um cigarro de palha, já no seu final.

A entrada de um forasteiro chamou a atenção.

Entrou cumprimentando os presentes e encostou no balcão pedindo uma cachaça.

 

— Ouvi dizer que a lagoa aqui do bairro tem traíras boas. — comentou o desconhecido, com um sorriso confiante. — Estou pensando em pegar algumas nesta noite.

 

Os frequentadores do bar se entreolharam, e o ambiente, antes tranquilo, ficou subitamente tenso. Seu Antônio, o senhor de cabelos grisalhos sentado no canto, sem olhar na direção do forasteiro e ainda ajeitando seu cigarro, comentou:

 

— Moço, não é aconselhável pescar na lagoa durante a noite, especialmente em noites como esta. — disse ele, apontando para a lua que brilhava entre nuvens estranhas. — Com essa lua há coisas que a gente não entende acontece por lá.

 

O visitante o procurou com os olhos, tomou sua cachaça em um gole só e soltou uma risada discreta.

 

— Você está tentando me assustar com suas histórias meu bom velho?

— Não é brincadeira, rapaz. Muitos já desapareceram naquela lagoa em noites como esta. Dizem que a água chama...

 

Ignorando os avisos, o forasteiro pagou sua bebida e se levantou.

 

— Agradeço a preocupação velho, mas não acredito nessas superstições. Vou pescar assim mesmo.

 

Com sua vara de pesca e uma lanterna, ele seguiu em direção à lagoa e o velho completou:

 

— Melhor avisar a polícia. — Disse ao dono do bar — Esse num vorta mais.

 

A noite estava clara, iluminada pela lua que lançava um brilho prateado sobre a superfície da água. O ambiente era silencioso, exceto pelo som ocasional de sapos e grilos.

Instalado na margem, o homem lançou sua linha, acendeu um cigarro e aguardou. O tempo passava lentamente, e ele começou a sentir uma inquietação crescente. De repente, pequenas ondulações surgiram na água, seguidas por bolhas que pareciam vir do fundo da lagoa.

Uma voz suave e hipnótica ecoou em sua mente:

 

— Entre na água...

 

Ele olhou ao redor, procurando a origem da voz, mas não viu ninguém. Seu coração acelerou, e ele tentou ignorar o chamado, concentrando-se na pesca. Ele estava só.

 

— Entre na água... — a voz repetiu, mais insistente.

 

Uma luta interna começou. Ele sabia que não havia ninguém ali, mas a voz era irresistível. Suas mãos tremiam, e o suor escorria por sua testa.

 

— Não... — murmurou para si mesmo, tentando resistir.

Mas a voz continuava, sedutora e autoritária. Seus pés começaram a se mover, como se tivessem vontade própria. Ele cravou os calcanhares no chão, tentando se deter, mas uma força invisível o puxava em direção à água.

Marcas profundas foram deixadas no solo enquanto ele era arrastado, suas unhas rasgando a terra em uma tentativa desesperada de se segurar. Seus gritos de pavor ecoaram na noite, mas ninguém estava por perto para ouvi-los.

Ao entrar na água, a sensação gelada o envolveu, e a voz em sua mente tornou-se ensurdecedora. Seus olhos se arregalaram de terror enquanto era submerso, a escuridão da lagoa o engolindo completamente.

Na manhã seguinte, os moradores encontraram apenas os pertences do forasteiro na margem da lagoa. Nenhum sinal dele foi encontrado, e as marcas no chão contavam uma história de luta e desespero.

Quando a história se espalhou, ouviu-se uma voz não muito distante da lagoa.

 

— Eu num disse... — falou um velho enquanto acendia um cigarro, sentado no mesmo banco do bar.

 

 O Igarapés ganhou mais uma história, e os habitantes reforçaram seu respeito pela lagoa, especialmente em noites de lua como aquela. Se você nunca viu essa lua na lagoa... Seja feliz. Se quiser ver, procure o velho no bar. Afinal, há mistérios que é melhor não desafiar. 

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