sábado, 7 de junho de 2025

Conto selecionado!!!


              Viagem ao além

Depois de um bom tempo sem participar de concursos ou seleção para antologias, resolvi em março que participaria esse ano.

Analisei alguns e um me chamou a atenção. Editorial Medusa, seletiva de contos com o tema: Antologia Caronte. 

Esse era o desafio.

"Caronte é conhecido como o barqueiro das almas, aquele que conduz os mortos pelo rio Estige até seu destino final. Mas será que essa travessia precisa ser sempre de barco? E se, em diferentes tempos e culturas, o transporte para o outro lado assume novas formas? Nesta antologia, a travessia pode ocorrer de inúmeras maneiras. Um trem fantasma cruzando um deserto infinito, um metrô sem paradas levando passageiros a um destino desconhecido, um táxi que só aceita aqueles que já vieram deste mundo. De acordo com o ambiente e a tradição de cada história, uma viagem pode se dar por diferentes meios: antigos ou modernos, místicos ou tecnológicos, reais ou metafísicos. Caronte não é apenas o velho barqueiro com sua moeda e seu remo –ele pode ser o motorista de um ônibus que nunca chega ao fim da linha. Seja no folclore, na mitologia ou na urbanidade contemporânea, atravessia será o ponto central".

E não é que deu certo!!

Meu conto "Viagem ao além" foi selecionado e participará da antologia. Assim que permitido e contrato assinado, vou públicá-lo.


10ª Sexta-feira - Esperando o apito final

      Esperando o apito final 


Tá! eu assumo… vacilei.

Quando fui pra aquela partida de futebol, já sabia que não devia estar ali, no campo do Igarapés. Mas o desejo de jogar foi mais forte que o bom senso.

Mesmo com os olhos atentos ao redor — como quem conhece o terreno e seus perigos — não deixava de me concentrar no jogo. O placar teimava num 0 a 0 irritante.

Quase no fim da partida, enfim, fizemos o gol. Um a zero. Era só o juiz apitar e sairíamos vitoriosos.

Foi quando disparei pela direita e recebi a bola, redonda e limpa, pedindo pra ser cruzada. Corri pela lateral do pequeno campo, pronto pra aquele que, talvez, fosse o último lance. Olhei para a área. Nosso centroavante estava livre. Armei o cruzamento e — Dois estampidos, secos e próximos.

A dor veio primeiro, brutal, queimando o peito. Meus joelhos cederam. Caí. Ainda vi a bola rolando mansa perto de mim, esperando o toque final. Todos gritavam, corriam, sumiam da minha visão turva.

Procurei o juiz com os olhos, só queria o apito. O final do jogo. Mas tudo escureceu.

Quando abri os olhos, estava deitado perto da bandeirinha de escanteio. O peito doía como se ainda ardesse. Tentei me levantar, em vão. O campo estava deserto, mergulhado num breu de fim de domingo. Nenhuma alma viva por perto. Só eu… e minha dor.

Arrastei-me até o alambrado, gemendo. Encostei as costas na grade e fiquei ali, respirando com dificuldade. A única luz vinha das casas próximas, lançando sombras distorcidas sobre o campo vazio.

Então ouvi um som vindo do alto. O bater pesado de asas. Grosseiras demais para um pássaro comum. Encolhi-me instintivamente. Um cheiro estranho, forte, chegou junto com a presença.

Uma sombra se projetou à minha frente. Um homem alto, de corpo robusto, surgiu do escuro. Duas asas negras e lustrosas se abriam em suas costas.

— Espero que esteja satisfeito, rapaz. No fim, conseguiu o que queria.

— Quem é você? Me… me ajuda! — pedi, a voz rouca, embargada.

— A ajuda já não serve mais. O que tinha de ser feito… foi.

Minha cabeça girava. Queria calar, mas as palavras escapavam, como se a boca não me pertencesse.

— Você roubou, agrediu, violentou. Achou que nunca teria troco. Mas foi além. Mexeu com a mulher de outro — digamos — profissional como você. E deu no que deu. Dois tiros no peito. Fim de jogo.

Nesse instante, um morador voltando do trabalho — cobrador de ônibus, desses que chega sempre tarde — ouviu as vozes e olhou pro campo.

O homem de asas virou o rosto em direção a ele. Bastou um olhar. O pobre coitado correu de volta pra dentro de casa, sem olhar pra trás.

— Vamos. Por sua causa, aquele ali me viu. Agora terei que lidar com mais um. Trabalho extra, e eu detesto atrasos.

— Você é… o demônio?

Ele agachou-se até ficar à minha altura. Enfiou o dedo em minha ferida aberta. Eu gritei de dor. Ele sorriu.

— Não busco. Mando buscar. Mas alguns casos, como o seu… e o do vizinho ali — apontou com o queixo — eu mesmo trato. Por gosto.

— Eu… eu não posso andar.

Ele me encarou com olhos frios como pedra. Me empurrou de novo no chão e agarrou meus tornozelos. Suas asas se abriram num estalo seco. Começou a me arrastar, voando baixo, até saímos do chão, passando por cima do alambrado. Em direção à lagoa.

Foi quando o apito soou.

Forte. Cortante. Mas não era o fim do jogo. Era o vigilante noturno, passando de moto pelas ruas do bairro.

Tarde demais... Fim de jogo.

Nota do escritor: “Não reconheceu o anjo de asas negras? Isso pode ser um problema para você. Releia a 7ª sexta-feira. Ainda há tempo… talvez

9ª Sexta-feira - A última aula

 


               A última aula



A escola estadual ficava no fim de uma rua sem saída, cercada por árvores

antigas que lançavam sombras compridas nas manhãs cinzentas. Era um prédio

antigo, de janelas estreitas e silêncio grosso. Poucos ousavam passar por lá à

noite. Diziam que, depois que o último aluno saía, algo ali continuava acordado.

Márcio era o zelador e caseiro da escola havia alguns anos. Já tinha sido aluno por

ali — um dos bons, segundo diziam. Na juventude, como muitos outros garotos,

era encantado pela professora Solange. Linda, doce e com uma voz calma que

parecia acalmar até as paredes da escola. Tinha o hábito de agradecer o dia com

um beijo na face dela, e relutava em ir embora. Assim como tantos outros, ficava

só para se despedir.

Solange era mais que uma professora. Era a alma da escola. Organizou

campanhas para arrecadar alimentos, roupas, livros. Tinha um carinho especial

pelos alunos mais esquecidos pela sorte — entre eles, Márcio. Quando ele pediu

ajuda para um teste de emprego, ela não apenas aceitou, como se comprometeu

a escrever uma carta de recomendação.

Naquela semana, Solange passou a dar aulas extras só para ele. Dizia que ele

tinha um futuro bonito, que bastava querer. Na última noite de reforço, ela lhe

disse que o dia seguinte traria uma aula especial, a última antes de teste que faria

para o emprego. Márcio foi para casa leve, esperançoso, como quem carrega um

segredo bom.

Mas naquela madrugada, tudo escureceu. Solange morreu subitamente, vítima de

um infarto fulminante. Márcio não suportou. Sentiu-se traído pela vida, pela sorte,

por Deus. Largou os estudos, os sonhos, e se lançou no mundo de erros que

sempre evitara.

Anos se passaram. O menino promissor deu lugar a um homem endurecido, de

olhos fundos e palavras curtas. A única oportunidade que apareceu foi a de

trabalhar como caseiro na mesma escola que agora evitava olhar de frente.

Aceitou. Não por vontade, mas por necessidade.

Naquela noite, havia algo no ar. Um vento mais frio, um silêncio mais pesado.

Tomou um gole de cachaça e saiu para apagar as luzes do pátio. Tudo estava em

ordem. As salas escuras, os banheiros vazios, a secretaria em silêncio. Quando já

ia se recolher, notou uma luz acesa no segundo andar. Era a antiga sala onde

estudava.

Com a visão meio turva, pensou estar vendo coisas. Mas então, um vulto passou

diante da janela e acenou.

— Molecada abusada... — resmungou, largando a garrafa no chão.

Subiu as escadas com pressa, pronto para dar uma bronca. Mas ao abrir a porta

da sala, encontrou o espaço vazio. Apenas o silêncio — e uma frase no quadronegro:

"Só perde a razão quem a tem."

A frase que Solange escrevia toda aula de reforço. Seu coração disparou. Passou

os olhos pela sala. Nada. Só o som de sua própria respiração. Caminhou até o

quadro e pegou o apagador, já trêmulo.

Quando ia tocar a primeira letra, uma voz ecoou do fundo da sala:

— É assim que se perde a razão.

O apagador caiu de sua mão. Ele virou-se num salto — e ali estava ela.

Solange. Intacta. Os mesmos olhos serenos, o mesmo vestido azul, o mesmo

gesto com as mãos. Mas com uma luz estranha ao redor, como se não

pertencesse mais a esse mundo.

— Márcio... — disse ela, com doçura. — Não estou feliz com as escolhas que fez.

Mas ainda há tempo. Sente-se na sua carteira. Temos uma última aula para

terminar.

Ele, como um menino assombrado, obedeceu. Sentou-se na primeira carteira da

fila, olhos marejados, mãos trêmulas. A aula começou. Mas do que foi dito ali, ele

jamais contou a ninguém. Nem mesmo para a esposa.

No dia seguinte, largou a cachaça, procurou um curso e voltou a estudar. Dizem

que falava sozinho nas madrugadas, chamando alguém de “professorinha”. A

esposa jura que ouviu.

Hoje, Márcio é um empresário respeitado no bairro Igarapés. Mora numa casa de

frente para o antigo campo, atrás da escola. E em algumas noites, ao olhar pela

janela, vê a luz acesa na sala do segundo andar — a antiga sala de aula. Ele sorri.

Não por medo, mas por gratidão.

Afinal, nunca é tarde para a última aula

8ª Sexta-feira - Seu Valdir


                                             Seu Valdir


Ninguém no bairro do Igarapés sabia muito sobre o passado do velho seu Valdir.

Sabiam apenas que era sorridente, calado, e vivia sozinho num sítio no fim da rua

de barro, ali perto da caixa d’água do bairro.

Todo dia era a mesma coisa: bem cedo, ele surgia no pasto com o chapéu de

palha e um balde na mão, indo cuidar das vacas e das galinhas. Às vezes parava,

limpava o suor da testa com o braço e acenava para quem passava pela estrada

de chão. Sempre com aquele sorriso largo e os olhos semicerrados pelo sol.

Não falava muito, mas respondia aos gritos com um gesto, uma piscadinha ou

aquele riso mudo, quase infantil. As crianças, ao voltarem da escola, já sabiam:

havia sempre um cesto de frutas frescas na porteira do sítio. Enchiam as

mochilas, riam alto e gritavam um “obrigado!” para o velho, que as observava da

varanda, balançando na cadeira de taquara.

Todo sábado, seu Valdir descia até o mercadinho da Lagoa. Comprava alguns

mantimentos e voltava devagar, sacolas plásticas nas mãos, passos arrastados,

olhar sereno.

Foi só na segunda semana de abril que o silêncio começou a incomodar.

Chamavam por ele da porteira. E nada. Ele até olhava, parava o que estava

fazendo, virava o rosto devagar demais. Depois voltava às tarefas, mas sem o

sorriso.

— Estranho, não é? — comentou seu Geraldo com a filha. — Deve tá doente… ou

emburrado com alguém.

Mas ninguém via ninguém entrando ou saindo daquele sítio além dele mesmo.

Na quinta-feira à noite, feriado do Dia do Trabalhador, foi o Tião Moreno quem se

preocupou de verdade. Um cheiro ruim se espalhava pelo ar. Achou que algum

bicho tivesse morrido. Lembrou que, na noite anterior, vira o velho Valdir andando

pelo terreiro com uma lamparina acesa, falando sozinho, como se procurasse algo

no pasto.

Na sexta, resolveu ir até lá com a desculpa de querer comprar uns legumes.

Chamou do portão, bateu palma, gritou:

— Ô, seu Valdir! O senhor tá aí?

Nada.

Empurrou a porteira, que rangeu devagar. A trilha de terra batida ainda estava

úmida, como se alguém tivesse passado por ali há pouco. O silêncio parecia

escutar.

Na varanda, a cadeira de balanço oscilava sozinha, como se alguém acabasse de

se levantar. A porta da casa estava entreaberta.

— Seu Valdir…?

Entrou devagar. A casa cheirava a coisa velha, poeira e abandono. Os pratos sujos

na pia. No fogão, uma panela de arroz embolorado. Um prato com restos de

comida coberto de formigas sobre a mesa.

Nenhum sinal dele.

O estômago de Tião embrulhou. Saiu dali apressado e foi direto chamar a polícia.

Chegaram ao fim da tarde, quase noite. Dois soldados, uma viatura, e um silêncio

pesado. Vasculharam a casa, o terreiro, os arredores. Encontraram os animais

soltos, alguns magros, outros mortos no chiqueiro.

E sob um pé de manga, no canto do pasto, encontraram o corpo.

Seu Valdir. Inchado. Roxo. Coberto de moscas.

O legista foi direto: fazia pelo menos duas semanas que estava morto.

Mas aquilo não fazia o menor sentido.

— Como assim, duas semanas? — espantou-se dona Vilma. — Eu vi ele

anteontem indo tirar leite das vaquinhas! Chamei, ele se virou na minha direção…

mas não respondeu.

— Comigo foi igual — disse seu Alfredo. — Uns dias atrás, vi ele levando o cesto de

frutas. Mas meu menino falou que não tinha nada na porteira.

— Ele me olhou… — murmurou Tião, pálido. — Me olhou sem sorrir. E nem

acenou…

A polícia refez as rotas, conversou com os vizinhos, analisou imagens do

mercadinho. Nada de anormal.

Até que Carlão mostrou um vídeo gravado no celular três dias antes da descoberta

do corpo. Ele filmava um bando de pássaros que sobrevoava o sítio,

estranhamente inquietos.

No fundo da imagem, seu Valdir aparece saindo do mato. Passos arrastados.

Cabeça baixa. O rosto oculto pela sombra.

De repente, ele para. E vira-se devagar, direto para a câmera. Olhos sem brilho.

Sérios. Sem piscar.

Desde então, moradores juram ver um homem velho parado no pasto quando a

noite cai. Segurando um lampião. Olhando em silêncio.

Sem sorrir.

6ª Sexta-feira - Vai abrir o portão?

 

          Vai abrir o portão?


Você não precisa acreditar, mas foi assim... ou será.

Quando Sula disse que tinha visto algo no portão, ninguém levou a sério. Mas

eu, que sou curioso, fui lá conferir.

Tudo começou com um bater de palmas, a Melami — sua cachorrinha — latindo

sem parar, e um grito vindo da cozinha:

— Alguém vai ver quem é?!

Já era bem tarde, as crianças dormiam, e como o marido ainda não tinha

chegado, ela largou as panelas, enxugou as mãos no avental e, resmungando

consigo mesma, foi até o portão.

De cara, notou algo estranho. Não pelas palmas — volta e meia aparecia algum

cliente atrás de um lanche mesmo de madrugada. Mas sim por causa da luz

vermelha que se espalhava por debaixo do portão. Era um brilho trêmulo, meio

esquisito.

Sem pensar muito, abriu o portão.

Na sua frente estava um homem grande, forte, com presença difícil de ignorar.

— Boa noite — disse ele. — Vim buscar o que é meu.

— Meu marido já saiu com todos os pedidos... o seu deve estar chegando.

— Eu só quero o que é meu.

Foi então que ela percebeu que o rosto dele começava a se distorcer, e aquela

luz vermelha subia em volta do corpo do homem. Num reflexo, ela empurrou o

portão de volta passou o trinco e se encostou nele com força, como se o corpo

fosse tranca.

— Você não precisa me deixar entrar. Só quero o que é meu.

— Valei-me, minha protetora... aqui você não entra!

Uma risada fria ecoou, como se ele estivesse bem do lado dela. Ela começou a

chorar, a gritar, segurando o portão com toda a força.

Uma... duas... três batidas — cada uma mais forte que a outra.

— Só quero o que é meu!

— Vai-te embora! Suma daqui!

Mais três batidas. Agora mais suaves.

— Amor, abre o portão pra mim. Sou eu.

Ela se assustou. Era a voz do marido. Ou parecia ser.

Chamou pelo nome. Ele respondeu. Perguntou quem estava com ele.

— Abra, mulher. Sou eu! Tô sozinho, ué. Que maluquice é essa?

Ela se afastou um pouco, olhou pela fresta. Era o marido, sim, sobre a moto. Mão

já no trinco... mas então se deu conta: não tinha ouvido o barulho da moto

chegando.

— Você não me engana. Vai-te embora, bicho ruim!

— Mulher, tu bebeu foi? Abre esse portão!

Era o jeito dele. A mochila de entregas nas costas, o capacete. Parecia mesmo o

marido. Ela abriu devagar.

Assim que ele tirou o capacete, ela se jogou nos braços dele, chorando.

Contou tudo. Achou que ele fosse rir, mas não.

— Assim que saí da nossa rua — ele disse — encontrei o Luiz ali perto da lagoa.

Ele me pediu um cigarro. Falei que tava atrasado, mas parei e dei. Aí brinquei,

dizendo: “Se eu atrasar de novo hoje, até o coisa ruim vai vir buscar o lanche em

casa!”

Os dois se entreolharam, abraçados, e correram pra dentro. Quando já dentro de

casa escutaram as palmas novamente.

E você sairia?

Iria abrir o portão?

Eles mudaram-se do bairro na mesma semana, mas...

É como sempre digo: Uma vez morando no Igarapés, cuidado com as palavras.