terça-feira, 31 de dezembro de 2013
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Tentando entender
senão, parar por um segundo
e escutar a vida.
Não buscar entender,
a razão por que o rio nasce, desce,
se jogando no mar para morrer.
Talvez, meditar sobre a elevação das estrelas...
domingo, 29 de dezembro de 2013
# 206 - Leon Uris
sábado, 28 de dezembro de 2013
Uma dupra de dois.
Tião e eu
éramos uma "dupra" de dois, da melhor qualidade. Dava gosto de ver,
sô.
Quando a gente se juntava com o povo, lá na chácara do Vitô
— que ficava pertim da chácara de mamãe — era só alegria. Proseava, ria e
tomava todas até altas horas. Mas, naquele dia, acho que abusamo de verdade.
Chegamo na chácara já era noitinha, com os grilo berrando
pra valer. Tião, que era bom pra xuxu nessas coisa de carne na brasa, foi logo
acendê a churrasqueira, pra mode a gente assá uns troço nela.
Eu, como de costume, abri uma cerveja e peguei logo o
violão. Dei uma afinadinha aqui, um acerto ali... E pronto: começou a cantoria.
Quando a gente se ajuntava, não tinha jeito, logo saía um
Raul. É ele mesmo, Raul Maluco, doido varrido, Seixas... O cara. Cantava Medo
da Chuva, que era a preferida do Tião, Metamorfose Ambulante, Maluco
Beleza e muitas mais. A gente ia cantando meio atrapalhado às vezes, mas
era de coração. As mulher servia a carne saborosa que Tião preparava, e mal eu
acabava uma latinha, outra já brotava na minha mão. Cada canção era um gole
daquele que esvazia a lata. Ô trem bão!
Fomos indo noite adentro nessa lida. Às vezes até arriscava
uma sertaneja, embora eu não gostasse muito não. Já tínhamo comido e bebido de
montão, e as mulher, junto com a criançada, já tinham se recolhido, quando
Tião, sentado na mureta, começou a balançar.
Se eu não piso no pé dele, o homi tinha caído de costa. Ele
tava tombando, quando pisei no pé dele e ele veio pra frente de novo. Mas
bastou eu me distrair pra beliscar mais uma carninha... pronto. Capotô. Caiu
feito um saco de batata.
Larguei o violão, dei a volta na varanda pra socorrer o homi
que só ria. Acho que nem percebeu que tinha caído. Ajudei ele a deitar na rede,
ali mesmo, na varanda, e o homi apagou na hora.
Como eu tava sem sono, resolvi ir até a lagoa que ficava em
frente à chácara. Tava um frio danado, então joguei um pano nas costa e fui lá.
Sentei na beira da lagoa e fiquei jogando pedrinha na água, pensando na vida. A
lua tava linda, mas como já era de madrugada, caiu uma nebrina fria. Aí resolvi
voltar.
Entrei na chácara com o pano agora cobrindo também a cabeça,
por causa do frio, quando vi Tião levantar da rede, me olhar assustado e
gritar:
— Pera aí, Zé Inocêncio! Já vô te ajudá!
Acho que o danado tava tão beldo, como se diz por aqui, que
pensou que eu era o tal do Zé Inocêncio da novela. Aquele do Fagundes, Renascer,
lembra?
O homi saiu da varanda cambaleando feito um doido, correndo
no quintal, vindo pra cima de mim e... TUMB! (Isso é o barulho do tombo,
viu?) Caiu feio no chão, feito jaca madura. Levantou um poeirão em volta dele,
parecia até desenho animado.
Corri pra socorrer Tião e gritei pro povo da casa. Todo
mundo acordou assustado e foi lá fora ver o que tinha acontecido. Quando
chegaram, eu tava agachado ao lado dele, tentando acordá o homi.
— Acorda, Tião! Cê tá bem?
Ele abriu os zóio e disse:
— Ô Zé Inocêncio... Ainda bem que te achei. Pensei que
tivesse visto o fantasma do cê...
Foi falar isso e apagou de vez.
O pessoal me ajudou a levar ele de volta pra rede, e foram
dormir de novo. Eu fiquei ali, vigiando, vai que ele acordasse outra vez e
resolvesse ir procurar esse tal de Inocêncio na lagoa...
Zé Inocêncio... Vai vendo.
A gente era simples assim... e muito feliz.
Sardade dessas farra, Tião.
Ah! Ainda tem aquela vez que ocê dançou Maico Jaquisso...
Mas essa eu conto outro dia... Hehehe!
Abraço procê.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Uma surpresa no dia de Natal
Eu já estava
no ônibus, indo para casa, quando José subiu.
Era um dia especial. Acordei muito cedo para participar do
almoço de Natal com meus filhotes. Um dia feliz, daqueles raros, com todos eles
à minha volta.
Naquele momento, eu pegava o primeiro dos três ônibus que
faziam parte da longa jornada de volta. Estava a caminho da rodoviária de São
José dos Campos. A primeira etapa do percurso foi feita de carona, com meu
filhote mais velho me levando de moto até o centro da cidade. De lá, peguei
esse ônibus. Já sentado, levava entre as pernas a surrada mochila e, nas mãos,
o também bem vivido capacete (sabia da carona, então me preveni. Andar sem
capacete, jamais).
Já estava tranquilo, ajeitado, no banco ao lado do cobrador.
No meu MP3, o Rammstein soltava a voz com Mein Teil. Logo no primeiro
ponto depois de onde subi, o motorista parou. Foi quando ele entrou.
Era impossível não notar. Tatuagens até o pescoço, uma
mochila enorme nas costas — suja e maltratada — e, preso a ela, como quem se
agarra para não cair, um pequeno leão de pelúcia. Na hora, pensei no Léo, o
leãozinho do meu filho quando era pequeno. Mas isso é outra história...
Ele já havia passado por mim, quando voltou, olhou, sorriu e
disse:
— Janis Joplin!
Falava da estampa da minha camiseta. Toda preta, com a
imagem da Janis sorrindo e ajeitando os óculos azuis com a mão. Pediu licença,
largou a mochila no chão e sentou-se ao meu lado.
Parecia um andarilho. Usava um daqueles chapéus rasta com as
cores da Jamaica, prendendo um cabelo estilo Bob Marley. A barba grande e
maltratada lembrava o Raul. Uma figura, sem dúvida.
A mochila era gigantesca, cor caqui. Trouxe-a mais para
perto dos pés, ajeitou o pequeno leão e estendeu a mão:
— Sou José de... Só José mesmo.
Apertei sua mão — firme, por sinal — e me apresentei.
— Cara, eu sentei aqui por causa da sua camiseta. Eu adoro a
Janis. As pessoas esquecem muito rápido de tudo.
Tirei os fones, desliguei o MP3 e comentei:
— Verdade. Eu também curto muito ela.
José me parecia boa gente, apesar da aparência rústica e do
cheiro forte de suor. Contou que estava indo para Ubatuba, onde vivia da venda
de pequenos artesanatos. Passou o Natal com amigos em Jacareí e agora voltava,
esperando boas vendas com a movimentação de fim de ano na praia.
Conversamos sobre música, sobre Janis, e descobrimos mais
uma afinidade: ambos gostávamos do John Lennon, o melhor dos rapazes de
Liverpool. Pobre Paul...
Depois de um tempo, José ficou em silêncio e baixou a
cabeça. Pensei que estivesse cochilando. Mas então, começou a estalar os dedos,
criando um ritmo, e começou a cantar:
— Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz? My friends
all drive Porsches, I must make amends...
Um clássico da Janis. Todos no ônibus começaram a olhar em
nossa direção. Ele chamava atenção pelo tom firme e suave. Sabia realmente a
letra. Levantou devagar a cabeça, virou-se pra mim e disse:
— Pensa que eu não conheço a Janis? Vamos lá, cara, canta
comigo.
Fiquei sem saber o que fazer. Todos olhavam pra nós, e ele
insistia:
— Vamos, me acompanha!
Eu, ali, travado. E ele batendo palmas, repetindo o início
da música. Nunca me aconteceu algo assim.
Foi quando o cobrador, que estava logo atrás de mim, deu um
tapinha no meu ombro e incentivou:
— Canta!
Um rapaz de uns 25 anos, que também começou a estalar os
dedos. E então começamos um dueto. Eu, no começo bem tímido. Depois, mais
solto. E não é que o cara sabia mesmo a letra toda? Enquanto eu o acompanhava
como podia.
No fim, aplausos e até alguns assovios. Pode isso? Acho que
fiquei mais vermelho que um tomate — e olha que não sou tão tímido assim.
Foi tudo inusitado, natural e muito legal. Nunca me vi
cantando em público desse jeito, muito menos dentro de um ônibus. E ainda por
cima Janis! Quando penso que a vida já me aprontou de tudo, acontece uma
dessas. Incrível o que o Natal nos faz.
Foi massa. Só faltou o mais importante: registrar aquele
momento com uma foto. Mas eu sempre deixo escapar essas cenas, talvez por não
gostar muito de tirar fotos.
Obrigado, José. Que Deus lhe permita viver muitas outras
experiências e curtir a vida como só quem conhece a estrada sabe fazer.
Um abraço. E até qualquer dia.
— Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes-Benz...
