Já rodávamos havia quase duas horas, e eu segurava a caixa com firmeza, como se dela dependesse meu equilíbrio. No início, Rodrigo e Marlene ainda tentaram puxar conversa, mas minhas respostas curtas logo deixaram claro que eu não queria falar. O silêncio se instalou. Ainda assim, eu sentia, vez ou outra, o olhar atento dos dois sobre mim.
Confesso que me pegava encarando a caixa, perdido em pensamentos que eu mesmo não conseguia nomear. Não sabia exatamente o que me inquietava mais: o conteúdo desconhecido ou o peso do que tudo aquilo representava.
O bilhete deixado por Jorge também os impressionara. Talvez por isso ninguém sugerisse parar. Seguíamos adiante, como se o movimento fosse uma forma de manter o medo à distância.
Até que avistamos um restaurante à beira da estrada. A fome já não podia mais ser ignorada — e, no fundo, sabíamos que ali seria inevitável encarar a verdade. Rodrigo encostou o carro.
Parecia que eu não comia havia séculos. Não me afastei da caixa em nenhum momento. Escolhemos uma mesa mais afastada, buscando privacidade. Comemos em silêncio, cada um mergulhado em seus próprios pensamentos.
Foi Marlene quem quebrou o silêncio.
— Já estamos bem longe daquela cidade, alimentados… e sabemos de toda a história. Acho que chegou a hora de acabar com esse mistério. Você vai abrir essa caixa?
Olhei-a nos olhos e sorri, um sorriso breve e cansado. Ela tinha razão.
Coloquei a caixa sobre a mesa, reli o bilhete de Jorge mais uma vez e desatei o nó. Antes, porém, trocamos olhares rápidos e discretos, certificando-nos de que ninguém nos observava.
Dentro havia um envelope, uma carta e um pacote envolto em pano.
Abri o envelope. Dele caiu uma fotografia. Peguei-a. Era Jorge. Ao seu lado, uma mulher bonita, sorridente. À frente dos dois, um garoto de cerca de oito anos. Mostrei a foto aos outros, comentando que deviam ser a esposa e o filho.
Abri a carta e li em voz alta:
“Olá, meu amigo.
Como te disse, preciso de um último favor. Provavelmente, quando estiver lendo esta carta, se tive sorte, estarei muito longe, sem chances de voltar. Se não tive… bem, você já sabe de tudo.
Desde que te conheci, soube que podia confiar em você. Que, se precisasse, me ajudaria. Veja isso como uma grande armação daquele que nos criou — e sou grato por isso.
Desculpe por te envolver, mas, na verdade, não tive escolha. Antes de te pedir o favor, deixo um conselho: saia da estrada, esqueça sua busca, encontre alguém e viva o melhor que puder. É bom demais ter quem amamos por perto. Não deixe essa pessoa distante; traga-a para bem perto. Sei que encontrará alguém tão bom quanto você.
Dentro do pano encontrará o suficiente para cumprir meu último pedido. Há ali todas as informações e orientações necessárias. Mas, por favor, não conte tudo o que aconteceu à pessoa que procurar. Diga apenas que me conheceu e que lhe pedi esse favor.
Mais uma vez, obrigado. Fique com Deus.
Jorge.”
Fechei a carta lentamente. Ao erguer os olhos, percebi uma lágrima escorrendo pelo rosto de Marlene.
Peguei o pacote e o abri.
Meu Deus.
Dentro havia dinheiro. Muito dinheiro. E mais um papel.
Assustado, fechei a caixa de imediato e olhei para os dois. Eles pareciam tão atônitos quanto eu.
Abracei a caixa contra o peito e, quase instintivamente, todos olhamos ao redor. O restaurante estava quase vazio. Ninguém parecia ter notado nossa agitação.
Rodrigo se levantou para pagar a conta. Eu e Marlene seguimos para o carro, onde Dingo nos aguardava, atento.
Pouco depois, Rodrigo se juntou a nós e perguntou, em voz baixa:
— O que vamos fazer?
Respirei fundo antes de responder, já abrindo a porta do carro:
— Vamos embora daqui. Agora.