domingo, 9 de setembro de 2012

Andarilho X - Leopoldina



Caminhava triste pela estrada. Já fazia uma semana desde que meu companheiro, Dingo Pança, havia desaparecido. Naquele trecho de quase cinquenta quilômetros, entre Além Paraíba e Leopoldina, em Minas Gerais, nada parecia colaborar. Não consegui caronas, passei três dias sem um banho decente e minhas poucas economias se aproximavam perigosamente do fim.

Percebi, então, que Dingo fora mais do que um companheiro de jornada. Era também meu amuleto da sorte.

Ao longe, avistei o portal de entrada de Leopoldina. Bonito, imponente, quase um convite. Mesmo exausto, tentei uma carona para atravessar a cidade, mas não tive sucesso. Continuei a pé até notar um caminhão parado no acostamento. Aproximei-me.

O veículo apresentava problemas, e seu proprietário, Carlos Prego, tentava resolvê-los. Não entendo nada de mecânica, mas ofereci ajuda. Carlos aceitou prontamente — precisava apenas de alguém para segurar uma chave e testar a ignição. Passamos quase duas horas ali, eu sem compreender exatamente o que fazia, mas seguindo suas orientações. Carlos, por sua vez, sabia exatamente onde mexer. E, enfim, o motor respondeu.

Funcionou.

Como agradecimento, Carlos me ofereceu uma carona até a empresa onde carregaria o caminhão. Disse que lá eu poderia tomar um banho e comer algo. Aceitei sem hesitar.

A empresa era grande, bem estruturada, preparada para receber caminhoneiros. Tomei um banho revigorante e fiz uma refeição farta. Perguntei se poderia dormir ali, e Carlos concordou, dizendo que me apresentaria como seu ajudante. Antes disso, ainda ajudamos a carregar o caminhão, pois sairíamos muito cedo na manhã seguinte.

Já nos dirigíamos ao veículo quando encontramos outro caminhoneiro chegando, com o braço enfaixado, reclamando de um cachorro que o havia mordido. Contou-nos sua história.

No dia anterior, um ambulante o ajudara a descarregar o caminhão e pedira, em troca, que cuidasse de seu cachorro por alguns dias. Disse que estava doente e que alguém passaria para buscá-lo. Sem entender muito, mas grato pela ajuda, o caminhoneiro aceitou. O dono não apareceu. O cão, triste, quase não comia. Naquele dia, de repente, ficou agitado, desesperado para se soltar da corda que o prendia ao caminhão. Ao tentar acalmá-lo, o homem fora mordido.

Senti um calafrio imediato.

Pedi para ver o cachorro. Ele tentou me dissuadir, dizendo que o animal estava muito alterado e que já havia chamado o canil municipal. Insisti. Por fim, levou-me até ele.

Lá estava, tentando se libertar com todas as forças.

Dingo Pança.

Contei toda a história, expliquei que aquele cachorro era meu companheiro e pedi que o soltassem. Não houve tempo. Dingo conseguiu se livrar da corda e disparou em nossa direção. Nunca vi alguém correr tão rápido quanto aquele caminhoneiro. Nem mesmo o jamaicano Usain Bolt o alcançaria.

Dingo saltou sobre mim, quase me derrubando. Meu companheiro estava de volta.

O caminhoneiro só foi encontrado cerca de meia hora depois, escondido atrás do balcão de um bar próximo, apavorado ao nos ver. Acalmei-o, mostrei Dingo tranquilo, feliz, quase sorridente. Ainda assim, recusou-se a sair do esconderijo. Estendeu-me o braço, entregando uma carta, e pediu apenas que eu ficasse com aquilo e sumisse com o cachorro dali.

Agradeci e fui embora.

No envelope, encontrei uma carta:

“Amigo, desculpe por tomar seu cachorro emprestado. Como disse que passaria por aqui — não me lembro de você ter dito isso, pois nem você sabia por onde andaria — deixei-o com um colega para devolvê-lo. Graças a Dingo, escapei mais uma vez de ser pego. Ele me avisou quando alguns homens se aproximaram, e consegui fugir a tempo, perdendo as mercadorias, mas salvando a vida. São os homens contratados pelo pai do rapaz. Caçam-me desde então. Obrigado mais uma vez. Segue um endereço para que me ajude pela última vez.”

Dentro do envelope havia outro, menor. Abri-o. Encontrei um endereço e uma pequena chave.

Ao que tudo indicava, mais uma aventura me aguardava.

Como ele sabia que tudo isso aconteceria?

Por que eu?

— Vamos, Dingo… nossa estrada continua.

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