Com o corpo ainda dolorido — falta de costume de dormir em rede — espreguicei-me e empurrei Dingo para longe, rindo sozinho enquanto me levantava. O dia prometia. Havia duas semanas que eu praticamente me ocultava do mundo, sem dar notícias, desde os acontecimentos em Leopoldina. Agora era hora de voltar à estrada.
Foram duas semanas que valeram a pena. O trabalho pesado, carregando e descarregando cargas, rendeu um dinheiro honesto, suficiente para nos manter por mais algum tempo. Eu e Dingo precisávamos seguir.
Tomamos novamente a estrada, rumo a Manhuaçu, cidade mineira com pouco mais de oitenta mil habitantes. Deixamos alguns novos amigos em Muriaé para trás e, entre andar e rodar, já havíamos percorrido mais de cento e cinquenta quilômetros. Ainda assim, estávamos longe do destino.
Destino que não era acaso. Algo nos esperava ali.
Cada vez que parava e encarava a pequena chave em minha mão, um misto de ansiedade e receio tomava conta de mim.
Logo ao entrar em Manhuaçu, senti um clima estranho, pesado. A cidade parecia inquieta. Comentavam-se acontecimentos recentes: uma mulher morta numa picadeira, a presença ostensiva da Polícia Civil combatendo jogos de azar, um acidente de carro que vitimara duas pessoas — uma delas, advogado. Tempos quentes por ali.
Parei num ponto de táxi para pedir informações sobre o endereço que recebera em Leopoldina. O taxista me mediu dos pés à cabeça, não uma, mas três vezes, antes de responder:
— É a rua do correio… aquela ali, depois daquelas lojas.
Agradeci e segui na direção indicada. Duas, talvez três quadras. Dingo caminhava colado a mim, inquieto. Em alguns momentos parava, latia, sentava. Eu parava também, olhava para ele. Chamava-o. Só então voltava a andar.
Ao virar a última esquina, avistei de imediato o prédio amarelo e azul dos Correios. Conferi o endereço em minha mão e, com a outra, apertei a chave dentro do bolso, quase instintivamente, como se precisasse ter certeza de que ainda estava ali.
O número conferia.
Era o próprio correio.
Apertei a chave novamente. Olhei para Dingo. Ele mantinha o olhar fixo do outro lado da rua. Chamei-o. Lentamente voltou os olhos para mim, apenas para, em seguida, fixá-los novamente do outro lado, onde dezenas de pessoas transitavam sem notar nada.
Respirei fundo. Guardei o papel com o endereço, ajeitei a mochila com a rede e segurei firme a chave. Chamei Dingo para atravessarmos a rua.
Foi quando ele se levantou abruptamente.
Rosnou. Depois latiu.
Segui seu olhar e, do meio da multidão, surgiu um homem usando óculos escuros e boné. Caminhava em nossa direção.
Travei.
Dingo ficou ainda mais agitado, latindo alto, chamando a atenção de quem passava, enquanto o homem atravessava a rua. Engoli em seco. O suor brotou no rosto à medida que ele se aproximava.
— Olá, Dingo Pança… por que tanta agitação?
Antes que eu pensasse, as palavras escaparam:
— Oi, Jorge.
Estendi a mão.
— Essa chave te pertence.
Ele fechou meus dedos ao redor da chave e disse, num tom firme:
— Fique com ela mais um pouco. Não podemos conversar nem agora, nem aqui.
Olhou-me nos olhos, sério.
— Tenho pouco tempo. Sigamos, e te explicarei tudo. Vamos, Pança.
Virou-se e começou a caminhar em direção ao correio.
Fiquei parado.
O que fazer?
Segui-lo?
Sumir dali?
Travei de novo.
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