| Governador Valadares |
Por algum tempo ainda olhava para trás com frequência, atento, como quem teme ser seguido. Mas aos poucos relaxei. Estava bem. Verdadeiramente bem.
Parei à sombra de uma árvore, à beira da estrada, para descansar e comer algo. Dingo, como sempre, ao meu lado. Terminava um enlatado quando um carro reduziu a velocidade e encostou. Guardei a comida, ajeitei as coisas e esperei.
Um rapaz desceu do carro e caminhou em minha direção. Ao volante, uma mulher permanecia, com o motor ligado. Ele se aproximou acenando.
— Boa tarde!
— Boa tarde.
— Meu amigo, Governador Valadares ainda está muito longe? Estou indo pra lá e acho que me perdi.
— Estamos em Inhapim. Está no caminho certo. Deve levar pouco mais de uma hora.
Ele sorriu, aliviado, e olhou para Dingo.
— Seu cachorro parece muito com o nosso… ele fugiu de casa há bastante tempo. Qual o nome dele?
— Dingo. Dingo Pança.
— Pra onde você está indo? Meu nome é Rodrigo.
Levantei-me e apertei sua mão. Contei que estava na estrada havia algum tempo e que também seguia para Governador Valadares. Para minha surpresa, Rodrigo ofereceu carona. Apontei para Dingo, quase pedindo permissão com o olhar.
— Sem problema — respondeu. — Ele vai com a gente.
Sorri por dentro. Na noite anterior, eu e Dingo havíamos tomado um bom banho numa pousada em Caratinga. Estávamos limpos, apresentáveis. Nem sempre isso acontece na estrada.
Aceitamos.
Dingo, que estava deitado, levantou-se de um salto. Gostou mais da proposta do que eu. Correu em direção ao carro como se tivesse entendido tudo. Enquanto eu recolhia a mochila e a rede, vi Dingo pular pela janela aberta do banco traseiro.
Gritei seu nome. Não deu tempo.
Ouvi um grito vindo de dentro do carro. Corremos até lá.
Ficamos mudos.
Dingo lambia o rosto da mulher, que o abraçava com força, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Tobi… meu Tobi…
Naquele instante, tudo fez sentido.
Eram velhos amigos.
Marlene tinha algo em torno de trinta anos. Bonita, mas com marcas recentes de dor no rosto, daquelas que não se escondem. Rodrigo nos apresentou. Explicou rapidamente o combinado da carona, mas ela mal ouviu. Estava inteira no cachorro.
Entramos no carro. Rodrigo dirigia, eu ao lado. Marlene seguia atrás, com Dingo — ou melhor, Tobi — no colo, trocando carinhos que pareciam não ter fim.
Contei-lhes como o encontrara, onde, em que condições. Para Marlene, porém, ele sempre foi Tobi. Corrigia-me com um sorriso emocionado. Ela contou que ele havia desaparecido de repente, sem deixar rastro. Procuraram por dias. Depois, o silêncio.
Como isso era possível?
Seguiam para o velório do avô materno de Marlene. Era por isso o semblante pesado, a dor ainda fresca. No caminho até Governador Valadares, conversamos bastante. Eu e Marlene revezávamos lembranças, histórias, risos e espantos envolvendo Tobi. Rimos muito. Nos entendemos fácil demais.
Após cerca de uma hora de estrada, entramos na cidade.
Governador Valadares.
Não sei explicar ao certo, mas gostei muito daquela carona.
Só acho… que perdi um amigo.
Ou talvez, apenas o devolvi ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
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