Deixei o asfalto, atravessei uma cerca e entrei em um pasto. Caminhei até a sombra generosa de uma árvore. O céu começava a escurecer; não tardaria a noite chegar. Acendi uma pequena fogueira e preparei o jantar. O silêncio era quase completo. Quase.
Não demorou para termos companhia.
Montado a cavalo, surgiu um jovem rapaz. Aproximou-se com cuidado. O dono da propriedade. Desceu do cavalo e, com expressão séria, perguntou o que eu fazia ali.
Pedi desculpas pela invasão. Expliquei minha condição de Quixote errante e apresentei meu escudeiro, Dingo Pança. Airton abriu um sorriso espontâneo. Pediu para sentar-se conosco. Ainda aprovou nosso jantar. Ali havia um homem com rosto de menino — alguém que crescera antes da hora.
Enquanto comíamos, Airton se divertia com minhas histórias de estrada e, em troca, contou a sua. Perdera a mãe no parto e, desde então, distanciara-se do pai. Toda aquela terra ao redor era dele, do pai. E Airton ficara responsável por cuidar de tudo de perto, porque o pai já não conseguia acompanhar como antes.
Disse sentir falta de atenção e de carinho. Falava do pai com amor e orgulho por tudo o que ele construíra ao longo dos anos. Mas sua voz denunciava mais do que as palavras conseguiam dizer. Lembrei-me da música Pais e Filhos, da Legião Urbana, e a imagem do meu pai misturou-se à dos meus próprios filhos. É estranho como não percebemos: enquanto uns crescem, outros envelhecem.
Conversamos ainda por um tempo, rimos de histórias simples vividas entre pais e filhos. Então Airton se levantou. Disse que precisava ir. Agradeceu o jantar humilde, as prosas, e pediu cuidado com a fogueira. Estendi-lhe a mão, agradecendo a permissão para pernoitar ali e pela companhia.
Para minha surpresa, ele me abraçou.
Aproveitei o gesto e lhe disse que, ao amanhecer, quando acordasse, abraçasse seu pai. Que dissesse tudo o que havia me contado naquela noite. Afinal, seria Dia dos Pais.
Achou difícil. Disse que o pai levantava muito cedo para cuidar das coisas e que mal se viam. Montou no cavalo e partiu — um pequeno grande homem seguindo pela escuridão.
Restamos eu e Dingo Pança.
Dormir não foi fácil. Fiquei ali, deitado, olhando as estrelas, repassando a conversa. No alto, buscava o Pai maior, agradecendo por colocar no meu caminho pessoas tão boas. Decidi acordar bem cedo e seguir viagem. Apaguei a fogueira e deitei. Dingo se aninhou junto aos meus pés.
Mal fechei os olhos, ele latiu alto, alertando sobre a aproximação de alguém. O sol já despontava no horizonte. Levantei-me rápido e vi dois cavaleiros se aproximando. Arrumei minhas coisas e chamei Dingo para perto.
Era Airton. E com ele, um senhor mais velho, conduzindo outro cavalo pela rédea.
O homem desceu, aproximou-se de mim e disse, com voz firme e tranquila:
— Junte suas coisas e me siga. Tem um café da manhã te esperando lá em casa.
Estendeu a mão e completou:
— Feliz Dia dos Pais.
Não há como não olhar para o céu e sorrir.
Valeu, meus filhotes.
Paz e bem.
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