Foi entrando na cidade que conheci Gilberto.
Estava em uma cadeira de rodas, vendendo bilhetes da loteria federal em um ponto de ônibus. Ao me ver, sorriu largo e me ofereceu um número.
— A sorte está com você hoje — disse.
E, curiosamente, ele tinha razão.
Coloquei a mochila no chão ao seu lado e expliquei que não queria apostar. Pedi apenas uma indicação de um lugar barato para almoçar. Ele me olhou, ainda sorrindo, e respondeu com naturalidade:
— O almoço hoje é por minha conta.
Virou a cadeira na direção oposta e atravessou a rua. Fiquei observando. Entrou em um bar, falou algo com uma moça, apontou discretamente em minha direção. Fiz um gesto de confirmação. Minutos depois, a moça lhe entregou uma sacola plástica. Ele agradeceu e voltou, desviando dos carros com habilidade surpreendente.
— E aí, Quixote… vamos almoçar? — disse, erguendo a sacola.
Eram duas marmitas.
Segui com ele até um galpão ao lado do ponto. Dingo veio junto, atento como sempre. Sentei-me em um pequeno banco e Gilberto me entregou uma das marmitas.
— Por que me chamou de Quixote? — perguntei.
Ele riu.
— Ora… quem mais seria? Um caminhante pela estrada, com um escudeiro ao lado, só pode ser um Quixote. E se é Quixote, está atrás de uma Dulcinéia. Acertei?
Sorri.
— É verdade. Sinto-me um Quixote, atrás de uma Dulcinéia. E até arrumei um Dingo Pança pra me acompanhar.
— Então, almocemos — disse ele, satisfeito.
Enquanto comíamos, Gilberto contou sua história. Fora um andarilho como eu. Sua caminhada terminara ali, em Volta Redonda, depois de ser atropelado no acostamento da estrada. Socorrido, acabou ficando naquela cadeira de rodas — e naquela cidade. Recebera abrigo de Soninha, a moça do bar, a mesma que mandara as marmitas. Hoje, morava nos fundos do estabelecimento.
Disse que reconheceu em mim o que um dia fora. Apesar de sua busca ter tomado outro rumo, também encontrara sua Dulcinéia. Não fora correspondido, mas encontrara. E isso lhe bastava. Vivia em paz com aquilo.
Depois do almoço, agradeci e me levantei para seguir viagem. Gilberto então se ofereceu para dividir comigo seu cantinho nos fundos do bar naquela noite. Agradeci novamente, mas disse que precisava caminhar se quisesse alcançar a próxima cidade antes do anoitecer.
Peguei minhas coisas, chamei Dingo — ainda repousando depois da refeição — e nos preparamos para sair. Gilberto seguiu para os fundos do galpão.
Ao passar pelo bar de onde viera o almoço, ouvi uma voz me chamar.
— Boa tarde… cadê seu primo?
Virei-me, surpreso.
— Primo? … Ah, você quer dizer o Gilberto. Não é meu primo. O conheci hoje. É apenas mais um amigo. Ele disse que eu era primo dele?
Ela confirmou. Gilberto lhe dissera que eu era seu primo, recém-chegado de longe, faminto, precisando de um lugar para comer e descansar uma noite. Por isso, ela mandara as duas marmitas e concordara que eu dormisse no quarto dele, nos fundos do bar.
Expliquei que não havia parentesco algum. Agradeci pelo almoço e tentei pagar, mas ela recusou prontamente. Era uma mulher bonita, com traços de quem já lutara muito na vida.
Disse que, se quisesse, poderia ficar naquela noite. Respondi que precisava seguir.
— Você é um andarilho também, não é?
A pergunta veio direta demais. Fui pego de surpresa. Não neguei. Notei uma mudança em seu olhar. Algo aconteceu ali, mas não soube decifrar.
Ela insistiu para que eu ficasse. Ofereceu até um trabalho temporário para ganhar alguns trocados. Poderia seguir no dia seguinte. Não sei exatamente por quê, mas aceitei.
Precisava organizar caixas de garrafas, abrindo espaço para a construção de mais um cômodo. Segundo ela, seria para ampliar o bar e começar a servir refeições — um pequeno restaurante. Sem pensar muito, mergulhei no trabalho.
Depois de algum tempo, Soninha trouxe suco e um lanche. Como o movimento estava fraco, deixou um funcionário cuidando do bar e sentou-se comigo por alguns minutos. Conversamos. Contei minhas aventuras. Rimos juntos. Depois, ela voltou ao trabalho.
Era simpática, separada havia alguns anos. O marido a trouxera do interior de Minas Gerais e depois a abandonara, indo embora com outra mulher para o sul do país. Decidiu então montar o bar. Lutou muito, trabalhou duro, e deu certo.
Quando tudo parecia finalmente em ordem…
— Quase matei uma pessoa — disse, baixando o olhar.
Gilberto.
Fora ela quem o atropelara na estrada.
E mais uma vez, a caminhada mostrava que nada — absolutamente nada — acontece por acaso.
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