domingo, 17 de junho de 2012

Andarilho - capítulo 1 - Saindo de casa


Era um domingo frio, coberto por nuvens densas, quando ele partiu. O céu parecia conter o fôlego. Fechou o portão sem pressa, como quem sabe que certos gestos não pedem testemunhas, e então olhou para trás. O cachorro, castanho e inquieto, balançava o rabo com entusiasmo desmedido, rebolando o corpo inteiro, alheio à gravidade do instante. Ele deteve o passo, sustentou aquele olhar por um segundo que pareceu maior que o tempo, sorriu com doçura e se despediu.

Havia muito que planejava deixar o seu mundo. Abandonar o que conhecia, soltar as amarras do cotidiano e lançar-se à busca de sua Dulcinéia — à maneira de Quixote, guiado não pela razão, mas pela fé inabalável no amor. Sabia que a procura o levaria para muito longe dali. Ainda assim, para quem ama, distância alguma é argumento. Precisava ir ao encontro dela.

Foram anos de preparo silencioso. Quis partir sem deixar arestas, sem pendências, como quem fecha portas com respeito antes de seguir adiante. Trabalhou duro por quase dois anos, economizando o que podia, abrindo mão do supérfluo, organizando cada detalhe da empreitada com um cuidado quase ritualístico.

Nada seria fácil. Ele sabia. Mas também sabia que não partir seria ainda mais difícil. Não era apenas um desejo — era uma necessidade. Precisava fazê-lo. Precisava tentar ser feliz.

Estudou mapas como quem decifra destinos. Traçou caminhos, escolheu rotas, marcou cidades. Fez contatos ao longo de todo o percurso, ponto a ponto, cidade após cidade, buscando apoios, abrigo, pequenas âncoras humanas espalhadas pela estrada. Não caminharia totalmente sozinho, embora aceitasse a solidão como parte da jornada.

Era um sonho antigo: seguir pelas estradas, deixar que os passos contassem histórias, mesmo sabendo que sua condição impunha limites. Ainda assim, queria fazê-lo. Ir ao encontro do próprio destino, em busca da mulher amada, registrando cada experiência, cada tropeço, cada revelação até, enfim, encontrá-la.

Como Dom Quixote, sabia que enfrentaria muitos moinhos de vento — desafios desproporcionais, batalhas talvez invisíveis aos olhos alheios. Ainda assim, mesmo só, partiu.

Seriam quase três mil quilômetros. Uma distância cruel para seu corpo, mas não para sua vontade. Preparara-se para aquele momento por tempo suficiente. E agora, o instante chegara.

Atravessaria pontes suspensas entre partidas e chegadas. Caminharia sob o sol, assistiria ao seu nascimento todas as manhãs, espalhando calor e colorindo o mundo. Ao fim do dia, despedir-se-ia dele enquanto mergulhava no horizonte, prometendo reencontrá-lo no amanhecer seguinte. E assim seguiria, firme, dia após dia.

Nas costas, uma mochila marcada pelo tempo. Na mão, um bastão — mais companheiro que guia. Na cabeça, um boné do System Of A Down, tão castigado quanto a mochila. No peito, uma esperança quase imprudente. Partiu sorrindo, consciente do que buscava: uma cidade distante… e algo muito maior do que isso.

Ligou o celular no modo mp3, escolheu um álbum da Pitty, acomodou os fones nos ouvidos e deu o primeiro passo. A estrada se abria diante dele. Ele seguia em busca do sonho. Ao encontro de sua Dulcinéia.

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