domingo, 24 de junho de 2012

Andarilho II - A luz azul

63,8 Km

Logo no início da minha caminhada, a estrada me sorriu. Ao passar por São José dos Campos, a sorte tomou forma num carro azul, reluzente, quase recém-saído da vitrine, que seguia em direção a Taubaté. O motorista buzinou alguns metros à frente e me observou pelo retrovisor enquanto eu me aproximava pela direita. Cumprimentei-o com um sorriso aberto. Ao abrir a porta, agradeci — como quem agradece não apenas a carona, mas o sinal silencioso de que não estava sozinho.

Chamava-se Carlos. Representante comercial de produtos alimentícios, desses que dominam a conversa com naturalidade, como todo vendedor nato. Mal pegamos a estrada e ele já contava sua história, com entusiasmo sincero, orgulhoso da clientela que conquistara ao longo dos anos. Não os chamava de clientes, mas de “amigos comerciais”, e fazia isso com verdade.

Disse que começara ainda jovem, ajudando um tio na venda de carimbos para profissionais liberais. Ria ao lembrar do medo que sentia ao entrar em consultórios médicos. Ficava parado na calçada, suando, observando o entra e sai das pessoas, reunindo coragem. Quando finalmente se decidia, quase sempre descobria que o doutor havia acabado de sair. O alívio vinha junto da frustração: não venderia nada naquele dia.

Tentou também vender filtros de água. Gargalhou ao admitir:
— Esse trabalho não deu certo… foi por água abaixo.

Mas então sua expressão mudou. Os olhos, antes leves, ganharam firmeza ao encontrar os meus. Confessou que chegou a passar fome. Vivia de pão com manteiga e café — muitas vezes os mesmos que ganhava nas visitas que marcava. Um dia percebeu que aquilo já havia se tornado rotina: comer quase nada, sobreviver de cafezinhos. Encostou o carro lentamente no acostamento. Os olhos marejaram.

— Cheguei ao fundo do poço — disse, com a voz baixa. — Não via mais saída.

Respirou fundo, retomou o volante e seguimos viagem. Ainda sério, contou que certa noite, voltando para a casa do primo onde morava de favor, viu uma estranha luz azul no alto de um prédio antigo. Algo o chamou. Intrigado, aproximou-se. Na entrada, um cartaz gasto chamou sua atenção:

“Precisa-se de vendedor com fome.”

Sorriu sozinho.
— Sou eu — pensou.

Subiu escadas estreitas, mal iluminadas, sem corrimão, até chegar a um pequeno escritório. Um senhor escrevia numa mesa simples. Ao vê-lo, levantou-se e o cumprimentou. Conversaram longamente. O homem precisava de alguém para representar um novo produto alimentício que chegava à cidade. Queria um vendedor dinâmico, que conhecesse bem as ruas e tivesse um celular. Carlos não tinha o aparelho. Ainda assim, o homem confiou nele — e o ajudou a comprar um.

Na descida das escadas, tomado por um entusiasmo que já não sentia há muito tempo, prometeu a si mesmo que seria o melhor vendedor que aquele senhor já tivera. Antes de sair, olhou novamente para o cartaz e, então, percebeu o erro:

“Precisa-se de vendedor com fone.”

Riu alto. Arrancou o papel da parede e ergueu o olhar em busca da misteriosa luz azul… mas ela já não estava lá.

Daquele dia em diante, tudo mudou. Carlos construiu uma vida sólida: casa, carro, família. Ao me deixar na rodovia, mostrou com orgulho a foto da esposa e dos filhos. Antes de partir, virou-se para mim e disse:

— Sabe qual é o nome desse carro? Luz Azul.

Despediu-se com um sorriso e seguiu em direção à cidade. Fiquei ali por alguns instantes, olhando o céu limpo, azul como a lataria que se afastava. Sorri também, balançando a cabeça em silenciosa concordância.

Então, retomei meu caminho, firme, em direção à minha Dulcinéia.

Feliz luz azul.

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