sexta-feira, 29 de junho de 2012
#45 - Sören Kierkegaard
Sören Kierkegaard
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Excel - Lista com Validação I
Heróis
Acho que, no fundo, todos nós já quisemos ser algum
tipo de herói. Não necessariamente para salvar o mundo — embora às vezes até
fantasiemos com isso —, mas para impressionar alguém especial: um filho, uma
afilhada, um sobrinho... quem sabe até uma namorada.
Já contei sobre o Hulk Laranja — uma
boa lição que ganhei da minha filha. Crianças nos ensinam muito, e muitas vezes
acabamos vivendo uma espécie de personagem só pra vê-las sorrir. Falo como pai
e tio coruja: apaixonado por cada pequeno gesto, por cada olhar de admiração.
E essa vontade de ser herói nos
acompanha, mesmo quando o tempo parece correr cada vez mais rápido.
Outro dia fui ao cinema com meu filho.
Fomos assistir “O Poderoso Thor”. A sensação era de estarmos de volta à
infância — dois garotos conversando sobre histórias em quadrinhos, vilões,
superpoderes e efeitos especiais. Rimos, discutimos, nos empolgamos. Foi
incrível.
Saindo do cinema, enquanto caminhávamos
em direção à lanchonete, ele me perguntou:
— Pai, qual é o seu herói preferido?
Respondi sem pensar muito:
— Homem-Aranha!
Na hora começou a gozação. Segundo ele,
eu gostava de um herói “de colanzinho vermelho”. Ri e entrei na brincadeira,
mas fui logo defendendo o meu ponto.
Expliquei que o Homem-Aranha sempre me
pareceu mais próximo de nós, humanos comuns. Era só um garoto com poderes
incríveis, mas carregando um senso de responsabilidade gigante, às vezes até
maior que sua compreensão. Tinha problemas reais, conflitos de relacionamento,
dúvidas, medos. Tinha que cuidar da Tia May, lidar com os amigos, com a escola,
com a vida. Sempre dividido entre o Peter Parker e o herói que o mundo
precisava.
Chegamos à lanchonete. Fizemos nosso
pedido, comemos, rimos mais um pouco — e eu, claro, ainda tentando provar que
meu herói era o mais “gente como a gente”.
Na hora de ir embora, já a caminho do
caixa, resolvi devolver a pergunta:
— E você, filhote? Qual é o seu herói?
Ele me abraçou forte, sorriu e
respondeu:
— Muito boa a sua defesa. Meu herói é
igual ao seu...
— O Homem-Aranha?
— Não, pai. Meu herói é você. Mas... a
conta do lanche é tua, hein, herói!
E aí? O que se faz depois de uma
dessas?
Só agradecer. Valeu, guri.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
#44 - Anatole France
Apaixonado(a)... Dicas I
terça-feira, 26 de junho de 2012
Liderança
segunda-feira, 25 de junho de 2012
domingo, 24 de junho de 2012
Então...
| O colega indo pra casa, foi quase isso. Apenas o cão é fictício. |
Andarilho II - A luz azul
![]() |
| 63,8 Km |
Chamava-se Carlos. Representante comercial de produtos alimentícios, desses que dominam a conversa com naturalidade, como todo vendedor nato. Mal pegamos a estrada e ele já contava sua história, com entusiasmo sincero, orgulhoso da clientela que conquistara ao longo dos anos. Não os chamava de clientes, mas de “amigos comerciais”, e fazia isso com verdade.
Disse que começara ainda jovem, ajudando um tio na venda de carimbos para profissionais liberais. Ria ao lembrar do medo que sentia ao entrar em consultórios médicos. Ficava parado na calçada, suando, observando o entra e sai das pessoas, reunindo coragem. Quando finalmente se decidia, quase sempre descobria que o doutor havia acabado de sair. O alívio vinha junto da frustração: não venderia nada naquele dia.
Tentou também vender filtros de água. Gargalhou ao admitir:
— Esse trabalho não deu certo… foi por água abaixo.
Mas então sua expressão mudou. Os olhos, antes leves, ganharam firmeza ao encontrar os meus. Confessou que chegou a passar fome. Vivia de pão com manteiga e café — muitas vezes os mesmos que ganhava nas visitas que marcava. Um dia percebeu que aquilo já havia se tornado rotina: comer quase nada, sobreviver de cafezinhos. Encostou o carro lentamente no acostamento. Os olhos marejaram.
— Cheguei ao fundo do poço — disse, com a voz baixa. — Não via mais saída.
Respirou fundo, retomou o volante e seguimos viagem. Ainda sério, contou que certa noite, voltando para a casa do primo onde morava de favor, viu uma estranha luz azul no alto de um prédio antigo. Algo o chamou. Intrigado, aproximou-se. Na entrada, um cartaz gasto chamou sua atenção:
“Precisa-se de vendedor com fome.”
Sorriu sozinho.
— Sou eu — pensou.
Subiu escadas estreitas, mal iluminadas, sem corrimão, até chegar a um pequeno escritório. Um senhor escrevia numa mesa simples. Ao vê-lo, levantou-se e o cumprimentou. Conversaram longamente. O homem precisava de alguém para representar um novo produto alimentício que chegava à cidade. Queria um vendedor dinâmico, que conhecesse bem as ruas e tivesse um celular. Carlos não tinha o aparelho. Ainda assim, o homem confiou nele — e o ajudou a comprar um.
Na descida das escadas, tomado por um entusiasmo que já não sentia há muito tempo, prometeu a si mesmo que seria o melhor vendedor que aquele senhor já tivera. Antes de sair, olhou novamente para o cartaz e, então, percebeu o erro:
“Precisa-se de vendedor com fone.”
Riu alto. Arrancou o papel da parede e ergueu o olhar em busca da misteriosa luz azul… mas ela já não estava lá.
Daquele dia em diante, tudo mudou. Carlos construiu uma vida sólida: casa, carro, família. Ao me deixar na rodovia, mostrou com orgulho a foto da esposa e dos filhos. Antes de partir, virou-se para mim e disse:
— Sabe qual é o nome desse carro? Luz Azul.
Despediu-se com um sorriso e seguiu em direção à cidade. Fiquei ali por alguns instantes, olhando o céu limpo, azul como a lataria que se afastava. Sorri também, balançando a cabeça em silenciosa concordância.
Então, retomei meu caminho, firme, em direção à minha Dulcinéia.
Feliz luz azul.



